Crianças fogem de casa para não entrar para as Farc na Colômbia

VILLAVICENCIO - Os rebeldes marxistas da Colômbia estão ampliando o recrutamento de crianças, numa desesperada tentativa de contrabalançar as deserções e derrotas militares.

Reuters |

Cada vez mais famílias dizem ser obrigadas a fugir de casa por temor de que seus filhos sejam alistados compulsoriamente para as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e por outras milícias ligadas ao narcotráfico.

As Farc existem há 44 anos e há muito tempo usam crianças como soldados, mas atualmente o recrutamento está mais agressivo.

Uma menina de 12 anos na miserável província de Meta disse que inicialmente os guerrilheiros tentaram convencê-la com o argumento de que estaria lutando para proteger os pobres dos ricos.

Sem muito interesse em política, ela deu de ombros. Mas a abordagem continuou - desta vez por intermédio de garotos bonitos, que lhe pagavam refrigerantes e dançavam com ela na improvisada discoteca local.

Como ela continuava recusando, começou a sofrer ameaças. Foi então que fugiu com sua família, juntando-se a cerca de 3 milhões de colombianos refugiados de guerra.

"No começo era tipo uma sedução. Aí começaram a dizer: 'Você tem de fazer isso'", contou a menina, que atualmente vive numa escola para crianças refugiadas em Villavicencio, Meta.

Os pais da garota continuam vivendo em sua cidade natal, e ela pediu anonimato por temer represálias.

A violência na Colômbia diminuiu nos últimos anos graças a uma ofensiva militar com apoio dos EUA. O governo diz que as Farc têm hoje metade dos 17 mil combatentes que possuía há seis anos, quando o presidente Álvaro Uribe tomou posse.

A maioria dos colombianos despreza a guerrilha, que tem dificuldades para recrutar militantes mesmo em áreas sob seu controle. Especialistas dizem que meninos e meninas podem ser mais facilmente doutrinados.

Outros grupos armados estão usando táticas similares, tornando o recrutamento de menores um dos principais problemas do conflito atualmente, segundo Jorge Rojas, diretor do Codhes, principal entidade colombiana de direitos humanos.

"A maioria dos jovens de 18 anos já se decidiu a não se envolver na guerra. Mas uma criança de 12 não formou opiniões e pode ser treinada para matar sem remorsos. Quando fazem 18 anos, já são assassinos de sangue frio", disse ele.

"Então, quanto mais durar esse tipo de recrutamento, mais deve durar a guerra", acrescentou.

O Codhes afirma que 270 mil pessoas tiveram de deixar suas casas devido ao conflito no primeiro semestre, um aumento de 41% em relação ao mesmo período de 2007.

Rojas disse que a maioria foge de conflitos entre as Farc e o Exército, do recrudescimento de milícias paramilitares de ultradireita, e das ameaças de recrutamento forçado dos seus filhos.

A Colômbia tem a maior taxa de população que se desloca no mundo, depois do Sudão, segundo a Organização das Nações Unidas, que tem obtido mais relatos de famílias que deixaram suas casas para evitar que as crianças fossem captadas por grupos armados ilegais.

"Mais e mais testemunhas estão dizendo para nós que o deslocamento está relacionado a esse assunto", disse Giovanni Lepri, chefe do escritório da agência da ONU para refugiados em Villavicencio.

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