Centenas de crianças na Albânia vivem atualmente aprisionadas em suas próprias casas por medo de serem mortas em crimes de vendeta, uma tradição do país. Nikolin, de 11 anos, sonha com o dia em que poderá sair do portão de casa para ir à escola.

"Eu imagino que deva ser um lugar bonito, com cadeiras, bancos e um quadro negro", disse o menino ao repórter Mike Lanchin, da BBC. "Eu me imagino lá, com um monte de crianças."
Sentado na varanda da pequena casa de seus pais, em uma zona rural no norte da Albânia, ele olha com melancolia para o portão da casa, que marca a fronteira entre a segurança e o perigo.

"Seria ótimo fazer amigos, brincar, aprender e receber amigos em casa", diz ele.

Quando perguntado se sabe por que não pode sair, ele responde: "Sei que posso ser morto lá fora".

Feudo de sangue
Nikolin e seus três irmãos e irmãs tiveram o azar de ter nascido em uma família envolvida em um feudo de sangue, ou vendeta, há mais de 30 anos.

O pai das crianças, Kole Ndrepepa, era apenas um adolescente quando matou um vizinho após uma discussão perto do vilarejo onde mora.

De acordo com o antigo código albanês, o Kanun, "sangue se paga com sangue", e a família da vítima se vê no direito de se vingar matando qualquer parente masculino do assassino.

A regra vale mesmo que o assassino já tenha cumprido pena pelo crime. No caso de Kole, foram 15 anos de prisão.

"Depois que saí da prisão, tentei me reconciliar com os parentes da vítima, mas não consegui", diz o homem, de 50 anos. "Agora, estamos todos com medo de sair porque devemos sangue."
Como o código Kanun proíbe invasão de propriedade para praticar a vingança, a casa é o único local seguro para os que estão ameaçados.

Essa realidade foi retratada no filme Abril Despedaçado, de Walter Salles, inspirado no livro homônimo do albanês Ismail Kadaré.

Preocupação
De acordo com o coordenador da escola local, Leke Pjetri, outros 20 jovens estão na mesma situação de Nikolin.

O Comitê de Reconciliação Nacional (NRC), uma organização não-governamental que tenta fazer a mediação entre as famílias em guerra, estima que milhares de famílias albanesas estejam atualmente envolvidas em feudos de sangue em todo o país, deixando cerca de 800 crianças confinadas em casa.

Os feudos de sangue foram oficialmente banidos durante os 40 anos do governo comunista no país, comandado pelo linha-dura Enver Hoxha. Com o caos que acompanhou o desmantelamento do regime nos anos 90, a prática ressurgiu, geralmente motivada por disputas por propriedades rurais ou crimes de honra familiar.

O diretor da NRC, Gjin Marku, afirmou à BBC que, como a tradição prevê que o fim do feudo de sangue só ocorra com o consentimento de todos membros do sexo masculino de ambas as famílias, o processo de reconciliação algumas vezes pode durar até dez anos.

"Se apenas um homem na família protestar, todo o processo pode fracassar", disse Marku.

Condenações
O ministro da Justiça albanês, Enkelejd Alibeaj, diz que o problema está diminuindo lentamente, apesar de permanecer vivo em algumas áreas do norte do país.

Alibeaj, que ficou conhecido por combater a corrupção, nega as acusações de que as autoridades não estejam levando o problema a sério.

"O que preocupa não é a freqüência com a qual esses crimes ocorrem, e sim que crimes desta natureza ainda ocorram no século 21, em um país que aspira fazer parte da União Européia", afirmou.

Segundo o ministro, 13 pessoas foram condenadas no ano passado por crimes relacionados aos feudos de sangue.

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