Cresce pressão por diálogo na Bolívia, mas Santa Cruz desconfia do Executivo

LA PAZ - As chamadas para um diálogo entre o governo de Evo Morales e a oposição autonomista se intensificaram nesta segunda-feira, um dia após o reverendo revogatório na Bolívia, mas os líderes do próspero departamento (Estado) de Santa Cruz mantêm sua desconfiança em relação ao Executivo.

EFE |

Segundo declarações do ministro da Presidência boliviano, Juan Ramón Quintana, ao canal estatal de televisão, Morales está disposto a dialogar com os opositores, como o próprio presidente disse, no domingo, ao tomar conhecimento de pesquisas de boca-de-urna.

No entanto, Quintana não deu detalhes sobre quando e como será organizada essa mesa de diálogo, que será uma nova tentativa de aproximação após vários fracassos de iniciativas similares que ocorrem desde o final de 2007.

Segundo o ministro, é necessário que os atores políticos do país tenham um "espírito magnânimo" para virar "a página na história" da Bolívia e dar, de uma vez, uma certeza à população que, segundo ele, vive em um naufrágio permanente.

Quintana acrescentou que, se não for possível um "acordo substantivo", as diferenças devem ser resolvidas em 2009 em dois referendos sobre o projeto da nova Constituição, que foi taxativamente rejeitado pela oposição.

Segundo as pesquisas, a votação de domingo não só confirmou, mas aumentou o apoio a Morales e aos governadores de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, departamentos que fazem parte da região chamada de meia lua.

Vários analistas concordaram nesta segunda-feira que o voto dos bolivianos expressou uma mensagem clara que obriga as partes, em confronto desde 2006, a chegar a um acordo entre o projeto de Constituição de Morales e os estatutos autônomos aprovados unilateralmente pela meia lua.

De fato, o próprio Morales afirmou no domingo que a união dos bolivianos será alcançada "juntando a nova Constituição política do Estado com os estatutos autônomos", respeitando a legalidade.

Embora os resultados definitivos só devam ser conhecidos dentro de sete a dez dias, as pesquisas da imprensa assinalam que Morales foi ratificado no referendo com cerca de 63% dos votos, nove pontos percentuais acima dos recebidos nas eleições de 2005.

Com 23% dos votos apurados, a Corte Nacional Eleitoral (CNE) dá hoje a Morales um apoio de 52%, ao governador regional de Tarija, Mario Cossío, 65%, ao de Santa Cruz, Rubén Costas, 69,5%, ao de Beni, Ernesto Suárez, 67%, e ao de Pando, Leopoldo Fernández, 66%.

Segundo as enquetes, os governadores de Oruro, Alberto Aguilar, de La Paz, José Luis Paredes, e o de Cochabamba, Manfred Reyes Villa, perderam seus mandatos, apesar deste último não reconhecer sua derrota.

A missão de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) também se pronunciou a favor do diálogo, ao afirmar hoje que os resultados da consulta obrigam a classe política a "se sentar para chegar a acordos sobre os assuntos fundamentais para o país".

O chefe da missão da OEA, o ex-vice-presidente da Guatemala Eduardo Stein, destacou a necessidade de as partes estabelecerem "regras claras para a negociação" nos próximos dias.

Stein considerou que na Bolívia há espaço para a um acordo e pediu aos dirigentes políticos que levem em conta a mensagem dos cidadãos porque, segundo ele, "estão brincando com o país na beira do abismo".

O partido opositor Poder Democrático e Social (Podemos) também se pronunciou nesse sentido e seu dirigente, Tito Hoz de Vila, comemorou o discurso conciliador de Morales no domingo à noite.

"Seríamos cegos em não reconhecer uma vitória do presidente e nesse sentido agora mais do que nunca é preciso sentar à mesa do diálogo e o primeiro passo tem que ser dado pelo governo", disse Vila, cujo partido controla o Senado.

No entanto, os líderes do rico departamento de Santa Cruz fizeram ressalvas ao diálogo porque, segundo disseram, desconfiam das convocações do governo Morales.

O secretário de Autonomias de Santa Cruz, Carlos Dabdoub, assessor próximo ao governador Costas, disse que sua região "nunca se negou ao diálogo", mas há uma "falta de credibilidade na palavra do governo que nunca a cumpriu".

Em declarações à Agência Efe, Dabdoub disse que Santa Cruz solicitou um diálogo com Morales e um "pacto de reconciliação nacional" com a mediação da União Européia (UE), da OEA e da Igreja Católica, mas não obteve resposta do Governo.

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