Couro do pirarucu ganha espaço na alta costura

Manaus, 15 dez (EFE).- O pirarucu, um peixe gigantesco da Amazônia e um dos maiores de água doce do mundo, passou a ter seu couro usado como matéria-prima para a produção de bolsas e sapatos de alta costura.

EFE |

O peixe é famoso por seu tamanho - pode chegar a três metros de comprimento e 250 quilos de peso - e por sua carne de sabor suave e delicioso e que, além disso, tem poucos espinhos.

Há seis anos, as escamas do pirarucu também se transformaram em matéria-prima, muitas vezes incógnita, para a criação de acessórios usados por muitas mulheres em capitais da moda como Paris.

A engenheira florestal Rose Dias, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e uma das proprietárias da empresa Green Obsession, explicou à Agência Efe como nasceu este projeto, pelas mãos do organismo estatal, para criar uma inovadora marca de moda que "dá valor" à Amazônia.

"A filosofia de ser apenas mais um não é interessante para nós.

Temos o diferencial de sermos ecologicamente corretos e utilizarmos produtos de manejo florestal, excedentes da floresta e sem produzir devastação", afirma Rose.

O pirarucu é um peixe em extinção, cuja pesca está proibida no Brasil. Ele só pode ser obtido em unidades de conservação e viveiros, sempre com supervisão dos organismos de fiscalização do meio ambiente.

Rose afirma que sua companhia tenta dar prioridade às comunidades ribeirinhas, muitas das quais vivem exclusivamente de sua pesca, embora também adquiram o couro de empresas do ramo alimentício, que contam com pisciculturas próprias.

Tradicionalmente, o pirarucu costumava ser assado na brasa e "não sobrava nada" do couro. Porém, depois que passou a ser comercializado por grandes empresas, toda a pele começou a ser descartada, segundo a engenheira.

Então, o INPA pensou que este material, que representa 10% do peso do animal, poderia ganhar alguma utilidade, gerando mais renda para a cadeia produtiva.

O couro deste peixe apresenta vantagens em relação ao bovino: sustenta mais tensão, já que suas fibras são entrelaçadas, enquanto as da pele dos bovinos estão dispostas em paralelo, segundo os estudos do INPA.

A empresa também utiliza outros peixes da região, como o tucunaré, um animal de tamanho intermediário, de entre 30 centímetros e um metro de comprimento.

No total, sete pessoas trabalham na empresa regularmente. Porém, em função da demanda, mais empregados são contratados.

A mão-de-obra é recrutada em comunidades pobres, onde a empresa oferece cursos de capacitação, necessários porque a confecção das peças é mais difícil devido às características dos animais.

"É preciso saber trabalhar o peixe, já que o tamanho oferece mais dificuldades do que o (couro) bovino e exige costurar muitas peças à mão", explica Rose.

A Green Obsession já produz em média 200 peças ao ano, entre sapatos e bolsas. Os produtos da empresa já encontraram compradores em cidades como São Paulo e Belo Horizonte.

Além disso, a companhia já exporta seus produtos para França, Itália, Estados Unidos e Canadá, graças a contatos realizados na Feira Internacional da Amazônia, realizada anualmente em Manaus, e também por pedidos realizados por profissionais da moda que faziam turismo na região.

Rose revelou que chegou a receber uma proposta de uma renomada empresa francesa para que fabricasse peças com sua marca, mas a rejeitou argumentando que isso diminuiria a relevância do produto da região amazônica. EFE mp/bba

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