Cannes (França), 19 mai (EFE).- A primeira exibição de Os abraços partidos (Los abrazos rotos, 2009) foi recebida hoje em Cannes com diferentes opiniões, desde os que consideram o filme digno de prêmio até os que asseguram que o diretor espanhol Pedro Almodóvar está fora de forma.

"É uma das histórias mais profundas rodadas na Europa nos últimos anos", disse à Agência Efe um jornalista holandês. "Fiquei fascinado que, além de ter referências a outros diretores, desta vez ele tenha homenageado também a si mesmo. Há cenas que já são clássicas", completou.

Uma jornalista italiana, por outro lado, assegurou que "a construção do filme é genial". "Porém, não sei como funcionará com o público. Acho que, embora seja um filme muito sentido e muito vivido, talvez se incomodem um pouco", frisou.

Já um jornalista do britânico "Daily Mail", o mesmo que reprovou Lars Von Trier por "Anticristo", agradeceu o diretor espanhol por usa "provocação".

Pedro Almodóvar, em todo caso, mostrou seu melhor humor na coletiva de imprensa, acompanhado por toda a equipe do filme, inclusive Penélope Cruz, que foi apesar de uma gripe.

"É uma gripe normal, mas mesmo assim me faz sofrer muito", disse entre brincadeiras a atriz vencedora do Oscar.

"Temos aqui três prêmios de interpretação em Cannes". Assim Almodóvar apresentou Penélope, Blanca Portillo - ambas premiadas por "Volver" (2006) - e José Luis Gómez, que levou o prêmio por "Pascual Duarte" em 1966.

Após três meses em cartaz na Espanha, o filme reviveu em Cannes em tom de cinema político, uma metáfora sobre a recuperação da memória histórica feita por Almodóvar.

Sempre interpretado beirando o melodrama, com traços de cinema noir, o longa, que Almodóvar sempre classifica como um dos mais complexos de sua carreira, foi de algum modo reescrito por ele mesmo em Cannes, onde aspira à Palma de Ouro e dividiu opiniões.

Essa nova versão ele tinha guardado para si. "Não me tinham perguntado nunca por isso e aqui não me perguntaram, mas eu queria dizer", explicou. "É uma metáfora que não está clara, está dentro das minhas intenções e se não explico, não se entende. O que ocorre é que não encontrei um espaço para que no filme fosse expressada de um modo claro".

Sobre suas expectativas sobre prêmio, Almodóvar assegurou que vai embora na sexta-feira "para não dar a sensação de estar esperando".

"Mas estou disposto a voltar no domingo, embora seja para entregar o prêmio ao melhor ator ou ao melhor diretor", comentou.

Normalmente elogiado pela forma como comanda os atores em cena, Almodóvar reconheceu que para isso basta entender um pouco os seres humanos. "Alguém que não se entende com as pessoas dificilmente pode ser um bom diretor", explicou.

"Há um acordo tácito que me permite colocar a mão em zonas muito íntimas e às vezes muito dolorosas dos meus atores. A chave está nisso. Embora pareça que uma cena seja absurda ou beire o ridículo, uma interpretação realista faz com isso funcione", comentou o diretor espanhol.

"E eu, que sou muito tímido, às vezes se for necessário faço todos os papéis em cena. Em um filme, que não vou dizer qual é, mas foi meu quinto, cheguei a fazer um cunilingus em uma atriz para ensinar o ator como tinha que fazê-lo", assegurou Almodóvar entre risos.

Almodóvar quis também homenagear, como em "Os abraços partidos", "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988). "A fertilidade desse roteiro foi incrível", confessou. "Além disso, seus fantasmas me acompanharam durante essa última filmagem".

"Estão sendo feitas agora duas adaptações. Uma para a FOX em forma de série de televisão, que pretendem que seja infinita e tomara que consigam", explicou.

"A outra é um musical da Broadway. Em 10 de junho irei aos primeiros ensaios", contou o espanhol. EFE msc/rr

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