Corte do Camboja ouve acusações contra chefes do Khmer Vermelho

Três dirigentes do regime comparecem a tribunal pelo genocídio no país nos anos 1970 que deixou cerca de 2 milhões de mortos

iG São Paulo |

Três dirigentes do regime maoísta do Khmer Vermelho, que governou o Camboja de 1975 a 1979, compareceram nesta segunda-feira a um tribunal especial para escutar as alegações iniciais contra si, em um dos mais complexos e importantes julgamentos por crimes de guerra já realizados no mundo. O trio é apontado como responsável pelo planejamento da campanha de aniquilação que deixou pelo menos 2 milhões de mortos em 45 meses.

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Foto divulgada pela Corte do Camboja mostra a corte patrocinada pela ONU durante o julgamento dos dirigentes do Khmer Vermelho

Os três dirigentes ainda vivos do regime marxista totalitário são acusados de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, em um processo que durará vários anos e envolve 4 mil partes civis. O líder deles, Pol Pot, morreu na selva cambojana em 1998, prisioneiro de seus próprios correligionários.

O juiz Nil Nonn declarou os "debates abertos" no tribunal internacional patrocinado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no julgamento contra o chefe de Estado do regime do Khmer Vermelho, Khieu Samphan; do ideólogo e número dois da entidade, Nuon Chea; e do então ministro de Relações Exteriores, Ieng Sary. Os três são octagenários e estão com a saúde fragilizada. Nesta segunda, eles sentaram ao lado de seus advogados em uma corte especialmente construída para esse julgamento.

A ex-ministra de Assuntos Sociais Ien Thirith, esposa de Ieng Sary, que sofre de perdas de memória, demência e, possivelmente, Mal de Alzheimer, foi declarada incapacitada para ser julgada e não assiste ao processo. Os magistrados haviam pedido sua libertação na semana passada, mas os procuradores apelaram e ela permanecerá detida pelo menos até que a Câmara de Apelações tome uma decisão, dentro de 15 dias.

"O Partido Comunista de Kampuche tranformou o Camboja em um imenso acampamento de escravos, impondo a uma população inteira um sistema cuja brutalidade segue desafiando a razão", afirmou a promotora cambojana, Chea Leang. "Esses crimes ordenados e orquestrados pelos acusados estão entre os piores horrores infligidos em qualquer nação da história moderna."

O julgamento começou com os comentários iniciais da acusação, que lembrou casos concretos sobre os casamentos forçados, as torturas e assassinatos cometidos em cerca de 200 centros de segurança. A promotoria também atribuiu aos três membros da cúpula da organização de inspiração maoísta o planejamento de uma sistemática campanha para eliminar as minorias de origem vietnamita e de religião muçulmana.

Além disso, a promotoria assegurou que os três dirigentes da cúpula tinham informações sobre as mortes maciças e que os assassinatos obedeciam "estritamente às ordens e políticas dos acusados", algo que os réus negaram desde o início do processo judicial. "Os acusados conheciam perfeitamente as consequências (...) e devem ser responsáveis por isso", disse Leang.

Em seu discurso, o promotor internacional Andrew Cayley afirmou que os três acusados representam um "legado catastrófico" e tem "sangue nas mãos". As alegações da promotoria serão dadas até terça-feira, e serão seguidas por dois dias de respostas da defesa.

Centenas de cambojanos - monges, estudantes e sobreviventes - chegaram para acompanhar o processo, e as audiências serão transmitidas pela televisão.

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Foto divulgada pela corte do Camboja mostra Ieng Sary, ex-chanceler do Khmer Vermelho, sendo ajudado pela segurança
Essa sessão começou formalmente em junho , com as deliberações sobre os aspectos legais e foi posteriormente segmentada em pequenos processos para tornar o julgamento menos complexo no tribunal estabelecido em 2006, após quase nove anos de discussões. Em julho de 2010, Kaing Guek Eav, conhecido como "Duch", chefe da prisão S21 da capital, onde cerca de 15 mil cambojanos foram torturadas antes de serem executados, foi condenado a 30 anos de prisão.

A primeira fase julgará exclusivamente as deportações maciças das cidades para o campo, que causaram a morte de milhares de pessoas por exaustão, crise de fome e doenças, assim como os crimes contra a humanidade relacionados com esses. O veredicto em apelação é aguardado para 3 de fevereiro.

O primeiro-ministro Hun Sen sempre se opôs à abertura de outro processo, e as acusações de pressão do governo cambojano sobre o tribunal provocaram uma polêmica nos últimos meses. "É um acontecimento de primeira magnitude que o processo enfim tenha começado", comentou o porta-voz do tribunal, Lars Olsen. "Muitas pessoas achavam que isto jamais aconteceria", acrescentou.


Com AP, Reuters, AFP e EFE

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