Estudos indicam que atividade do tráfico corresponde a pelo menos 44% da renda bruta anual do país

A palavra mais usada para justificar o avanço do narcotráfico no México é “corrupção”. Do garçom ao especialista em violência, passando por livros e jornais, essa justificativa é uma constante.

“É preciso atacar a proteção oficial que os traficantes conseguem, não somente da polícia, mas também dos ministérios públicos, juízes e magistrados, e ainda dos políticos e funcionários públicos em municípios, Estados e instâncias federais”, afirmou ao iG o jornalista José Reveles, autor de diversos livros sobre o narcotráfico, entre eles o recém-lançado “El Cártel Incómodo”.

Segundo Reveles, uma “operação limpeza” que resultou na prisão, em 2008, de um subprocurador da República e de três diretores do escritório da Interpol no México exemplifica como as várias instâncias de poder do país estão contaminadas pelos cartéis de drogas.

O taxista Benjamin Betancur, de Guadalajara, também aponta a corrupção como o mal que mais alimenta o narcotráfico. “Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán deu uma festa de 15 anos para a filha e sabe quem fez a segurança? Helicópteros do Exército”, disse.

A história pode parece absurda, mas, segundo reportagem da revista americana "Time", Guzmán promoveu uma festança parecida com a descrita pelo taxista em 2007. Na ocasião, o chefão do narcotráfico realizou sua terceira cerimônia de casamento unindo-se à jovem Emma, que no mesmo dia completava 18 anos. O casamento e o aniversário foram comemorados em uma festa para centenas de pessoas, que contou com a presença de políticos e policiais.

Os salários dos policiais são baixos. Um levantamento da Secretaria de Segurança Pública do México publicado neste mês aponta que 61% dos 371 mil policiais municipais ganham menos de 4 mil pesos mexicanos (cerca de R$ 576) e, destes, 20% ganham menos de 1 mil pesos (cerca de R$ 144). Mas, segundo estudiosos, não é apenas a remuneração, e sim uma tradição nas relações escusas entre poder e crime, que perpetua a corrupção no México.

Contaminação na economia

Para se ter uma ideia do quanto as organizações criminosas estão enraizadas no sistema mexicano, o professor de direito Edgardo Buscaglia, um dos maiores especialistas em crime organizado do mundo e assessor da ONU, indicou em uma entrevista em abril ao jornal "Dallas Morning News" que o tráfico de drogas gera entre 44% e 48% da renda bruta total do país por ano.

Segundo a Associação de Bancos do México (ABM), o narcotráfico lava, anualmente, um montante entre US$ 19 bilhões e US$ 29 bilhões, com quase 50% desse total entrando no sistema financeiro do país. A maior parte desse dinheiro tem garantido a compra de armamento pesado que os cartéis usam para atacar as forças de segurança.

Em uma tentativa de combater a lavagem de dinheiro, o México anunciou na terça-feira uma das restrições mais rígidas de sua história nas transações de dólares. Turistas e mexicanos sem contas bancárias só poderão trocar US$ 1,5 mil por mês, disse o secretário das Finanças Ernesto Cordero, citado pela Associated Press.

O fluxo de dólares suspeitos dos EUA também tem contaminado empreendimentos mexicanos legítimos, de acordo com autoridades financeiras. “O problema está na economia formal, em que há um aumento incomum nas transações feitas em dólares”, afirmou Luis Robles, vice-presidente da ABM, também segundo a AP.

Em anos recentes, os bancos registraram um excesso de cerca de US$ 10 bilhões em depósitos e transações em dólares que não pode ser explicado pela atividade normal da economia. “Esse excesso diminuirá substancialmente” pela forma como os dólares eram usados livremente na economia, disse Robles. Anteriormente não havia esse tipo de limite, sendo possível comprar itens caros, como carros e casas, com dólares em espécie.

Impunidade

Na outra base que sustenta o crime, está a impunidade, segundo mexicanos entrevistados pelo iG . De acordo com um relatório da Procuradoria Geral da República, houve um crescimento de 15,86% nas investigações de crimes federais feitas entre os primeiros seis meses de 2009 em comparação ao mesmo período de 2008. Mas, apesar de parecer um avanço, o percentual indica que somente 15.602 investigações foram concluídas de um total de 98.361 averiguações.

“Estamos vivendo um estado generalizado de impunidade. Impunidade é a regra aqui”, afirmou Ricardo Gónzález Bernal, responsável pelo Programa de Liberdade de Expressão da Article 19, ONG que luta pela liberdade de expressão e de informação.

Em 2009, a Article 19 registrou 244 casos de agressão contra jornalistas e 12 assassinatos. Nenhum caso foi julgado. “Não importa se são agressões menores, como a destruição de uma câmera, ou gravíssimas, como um assassinato, um desaparecimento, as ações nunca chegam a julgamento. Eles investigam por um tempo, mas o caso nunca chega a ser julgado”, denunciou.

Cartéis de drogas do México contornam a ofensiva do Estado e expandem atividade por meio de alianças
Arte/iG
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A solução para um problema que parece não ter começo nem fim passa por diversos setores e reformas de base, na avaliação do jornalista Reveles. “Tem de parar a criminalidade atacando suas finanças e esquemas de lavagem de dinheiro. Há de acabar com a proteção oficial que os traficantes conseguem. E tem de atacar as causas de todo esse descompasso social: reduzir a pobreza, criar oportunidades de emprego, educação, acesso a serviços e a programas sociais”, afirmou.

**A repórter viajou a convite do Santander Universidades

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