O presidente do Equador, Rafael Correa, tomou posse nesta segunda-feira para seu segundo mandato, durante o qual pretende radicalizar sua revolução socialista e controlar os excessos da imprensa.

O dirigente de 46 anos prestou juramento diante do Parlamento na presença de uma dezena de chefes de Estado, que tinham participado antes da cúpula da Unasur, a União das Nações Sul-Americanas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou Quito antes da cerimônia de posse de Correa, alegando preocupações com o estado de saúde de seu vice-presidente, José Alencar, que luta contra o câncer.

"Lula tinha planejado nos acompanhar nessa cerimônia. Lamentavelmente, seu vice-presidente teve uma emergência médica muito grave e ele teve que voltar de emergência", disse Correa ao iniciar seu discurso de posse.

Fontes da presidência brasileira, no entanto, desmentiram qualquer tipo de especulação gerada por essa volta antecipada de Lula em relação ao estado de saúde de Alencar.

"O vice-presidente está debilitado pelas operações e pelo tratamento, mas não há qualquer situação de emergência", enfatizaram estas fontes à AFP.

Reeleito em abril já no primeiro turno, Correa quer intensificar as reformas empreendidas durante seu primeiro mandato e colocar seu país de vez na via do "socialismo do século XXI" pregado por seus principais aliados, a Venezuela de Hugo Chávez e a Bolívia de Evo Morales.

Correa também pretende aumentar os programas sociais em favor dos mais pobres e reavaliar os contratos de exploração concluídos com as petroleiras estrangeiras.

O presidente equatoriano reiterou suas críticas contra a imprensa. Nesta segunda-feira, ele classificou a imprensa como o "maior adversário" que teve de enfrentar durante a primeira etapa de seu governo.

"O maior adversário que tivemos nesses 31 meses de governo foi uma imprensa com claro papel político, mesmo que sem nenhuma legitimidade democrática", afirmou.

"Temos que perder o medo e propor formas de controlar os excessos da imprensa", declarou, uma semana depois de anunciar a cassação da licença de várias rádios e televisões.

"Temos que assumir as rédeas neste assunto, somos nós que vencemos as eleições, não os gerentes desses negócios lucrativos que se chamam meios de comunicação", acrescentou.

Correa prometeu, no entanto, conduzir sua revolução pacificamente.

"Para radicalizar esta revolução autêntica e soberana, não vamos utilizar balas, pedras ou botas, mas lápis, escolas e estradas", afirmara domingo, quando participava de uma cerimônia indígena.

Carismático para seus partidários mas autoritário para seus detratores, o presidente equatoriano se apóia em um aparelho estatal reforçado por uma reforma constitucional de inspiração socialista e em uma popularidade superior a 50%.

Correa, no entanto, começa seu segundo mandato num contexto de crise econômica e com menos aliados do que em 2006, devido às relações tensas que mantém com os sindicatos e os indígenas.

Além disso, terá de lidar com a queda dos recursos procedentes do petróleo e dos envios de remessas dos equatorianos do exterior, dois dos pilares desta economia dolarizada, que amarga uma taxa de desemprego de 8,3% e um déficit orçamentário de 1,5 bilhão de dólares, que equivalem a 10% do orçamento.

No âmbito da política externa, Correa disse que não pretende restabelecer relações diplomáticas com a Colômbia enquanto Bogotá continuar acusando-o de manter vínculos com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Quito rompeu suas relações diplomáticas com Bogotá em março de 2008, depois do bombardeio pelo exército colombiano de um acampamento das Farc em território equatoriano.

Correa subiu o tom contra o país vizinho no discurso de posse, afirmando que o acordo militar que está sendo negociado entre Bogotá e Washington servirá para combater "os governos insurgentes" da América Latina.

"Conscientes de nossa responsabilidade para com a manutenção da paz e ratificando nossa decisão de não nos envolvermos no conflito interno da Colômbia, levantamos claramente nossa voz de protesto contra esta situação", disse.

Correa criticou duramente o governo de Uribe, falando diante dos aproximadamente 10 governantes estrangeiros que participaram da cerimônia de posse, no Congresso.

"Tomara que a instalação de bases militares (...) não se proponha a fortalecer a política belicista do governo (colombiano) e combater não o narcotráfico, mas sim os governos insurgentes de nossa América", advertiu.

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