Corpos começam a ser enterrados no Haiti com uma lentidão desesperadora

Javier Otazu. Porto Príncipe, 15 jan (EFE).- Os corpos das vítimas do terremoto de terça-feira no Haiti, que deixou dezenas de milhares de mortos, começaram a ser enterrados nesta quinta-feira em valas comuns, 48 horas após a tragédia.

EFE |

Um caminhão e algumas picapes se dedicaram durante a tarde a recolher os corpos alinhados nas ruas da capital, segundo pôde comprovar a Agência Efe, para depois depositá-los em uma vala comum do cemitério Carrefour Academie, no bairro de Petion Ville.

No entanto, o ritmo de recolhimento dos caminhões foi de uma lentidão desesperadora, pois durante toda a tarde só conseguiram recolher cem corpos, como reconheceu Nicolas Challes, que comandou o trabalho.

Após ouvir as várias queixas de seus moradores por causa do mau cheiro que os cadáveres desprendem, Challes, de confissão evangélica, como gosta de ressaltar, decidiu oferecer este serviço a seus semelhantes junto com alguns médicos e trabalhadores da Cruz Vermelha.

O caminhão percorreu as ruas de Petion Ville, um bairro "rico" dentro dos parâmetros haitianos, e recolheu os corpos de adultos e crianças, cobertos apenas com lençois brancos.

Os cadáveres eram depositados em um pedaço de tábua cheia de sangue e depois "deslizados" até o caminhão.

Muitos curiosos observaram a passagem deste veículo tapando o nariz perante o terrível odor que deixava.

Ao chegar ao cemitério o motorista do caminhão levantou a caçamba, abriu a tampa traseira e deixou cair toda a carga de cadáveres, que se amontoou junto à vala comum.

Um mendigo se atreveu a manusear a roupa dos mortos na busca do último objeto de valor que pudessem levar antes de serem enterrados, sem que ninguém a seu redor desse a menor mostra de asco.

Enquanto isso, as ruas de Porto Príncipe davam mostras de uma grande agitação. Em cada esquina, os ambulantes que vendem refrigerantes e comida enlatada abriam suas barraquinhas e em frente a elas se amontoavam dezenas de pessoas exigindo comprar alimentos.

Os hospitais e clínicas estão totalmente lotados, com doentes que jazem em corredores e salas de consultas com um pessoal médico que faz o possível por atender os necessitados, apesar da falta de material.

Nas pilhas de escombros ainda trabalham algumas equipes de resgate na busca de pessoas soterradas entre as ruínas, mas sem quase nenhuma esperança de poder encontrar alguém vivo após dois dias do terremoto, que com 7 graus é o mais grave da história deste país.

O aeroporto de Porto Príncipe era hoje um fervedouro. Ainda fechado à aviação comercial, recebeu durante o dia todo vários aviões pequenos que trouxeram ao país aqueles que vieram por causa da catástrofe: jornalistas, bombeiros e membros de associações humanitárias.

Ao contrário deles, uma multidão de expatriados e de haitianos mais abastados lutava para sair do país e serem admitidos em algum dos "voos humanitários" que os países desenvolvidos estão fretando para tirar os seus cidadãos do inferno que se tornou o local. EFE fjo/ma

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