Corpo do ex-presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez é repatriado

Restos mortais de ex-líder foram alvo de disputa judicial entre sua viúva e sua "companheira sentimental"

iG São Paulo |

O corpo do ex-presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez, que estava nos Estados Unidos, chegou à Venezuela nesta terça-feira, após uma disputa judicial entre sua viúva e sua "companheira sentimental". Ele será sepultado na próxima quinta-feira em cerimônia pública organizada por seus parentes e partidários.

AP
Partidários do ex-presidente venezuelano Carlos André Pérez recebem seu caixão na sede de seu antigo partido em Caracas, na Venezuela (04/10)

Pérez liderou a Venezuela em duas oportunidades, de 1974 a 1979 e entre 1989 e 1993. O corpo do ex-líder, que faleceu em 25 de dezembro de 2010 em Miami, foi repatriado depois de um litígio entre as famílias do ex-presidente na Venezuela e nos Estados Unidos sobre o lugar onde seria enterrado.

Os restos mortais do ex-presidente, que estavam desde junho em uma cripta no cemitério Flagler Memorial Park, em Miami, foi alvo de disputa entre a viúva, Blanca Rodríguez de Pérez, e a companheira sentimental do político, Cecilia Matos.

Blanca entrou com um processo contra Cecilia Matos para evitar que o ex-presidente fosse enterrado nos Estados Unidos. Cecilia e suas filhas se opunham à repatriação, argumentando que o ex-governante tinha expressado seu desejo de retornar à Venezuela apenas quando Hugo Chávez não estivesse no poder.

A procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega, disse nesta terça-feira que está em vigor uma ordem de prisão contra Cecilia Matos, que será detida se ingressar na Venezuela para participar do funeral.

Um dos netos do ex-líder, Carlos Orlando Piñango, afirmou que o corpo do avô foi levado à sede regional do partido Ação Democrática (AD), do qual Pérez fez parte. O ex-presidente será enterrado no Cemitério do Leste, em Caracas, ao lado de sua filha Thaís, que morreu há 15 anos.

'Caracazo'

Pérez marcou a política da Venezuela na segunda metade do século 20 com a nacionalização do petróleo, em seu primeiro mandato, e com a crise social conhecida como "Caracazo" no segundo, o que abriu caminho político para o atual presidente Hugo Chávez.

Seu primeiro governo, entre 1974 e 1979, foi caracterizado pela nacionalização do petróleo e pela fundação da estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA), que permitiu ao país favorecer-se dos altos preços do óleo bruto e ganhar o apelido de "Venezuela saudita".

Apoiado pelo boom petroleiro, Pérez tentou virar um líder do terceiro mundo: deu seu apoio ao Movimento Sandinista para derrotar a ditadura de Anastasio Somoza na Nicarágua e pediu para inserir Cuba no sistema interamericano.

Ao concluir esse período, foi nomeado vice-presidente da Internacional Socialista (IS), dedicando-se com afinco ao trabalho político fora da Venezuela.

Sua imagem foi ofuscada em 1979, a poucos meses de terminar seu primeiro mandato, quando explodiu um escândalo sobre a compra com ágio do frigorífico Sierra Nevada e o Congresso tentou, sem sucesso, condená-lo administrativamente.

No entanto, sua liderança carismática se renovou e, em 1988, ganhou novamente as eleições pelo Ação Democrática, cuja direção já se encontrava muito dividida. Ele tomou posse pela segunda vez em 2 de fevereiro de 1989, em uma cerimônia na qual estavam presentes 24 presidentes ibero-americanos, além do vice-presidente americano Dan Quayle. Mas, antes que terminasse esse mês, ele teve de enfrentar o "Caracazo", a maior revolta popular que a Venezuela viveu na era moderna democrática.

Os protestos, motivados por um pacote econômico para enfrentar a enorme divida externa do país, deixou oficialmente 276 mortos e US$ 150 milhões em perdas, e marcou o início do fim de seu governo. Em muitas oportunidades, o presidente Chávez disse que esse protesto e as fortes desigualdades sociais foram o germe do que hoje ele chama "Revolução Bolivariana".

Três anos depois do "Caracazo", em 1992, Pérez derrotou duas tentativas de golpe, uma encabeçada pelo então desconhecido tenente-coronel Hugo Chávez, que, apesar de ser sentenciado a mais de dois anos de prisão pela rebelião militar, projetou-se como líder sobre as cinzas dos partidos tradicionais.

O segundo golpe, de 27 de novembro de 1992, foi encabeçado por generais e almirantes, e também derrotados pelas tropas leais a Pérez. Em março de 1993, o então procurador-geral Ramón Escovar Salom solicitou à Suprema Corte de Justiça um "antejulgamento de méritos", primeiro passo para julgar Pérez por malversação e peculado envolvendo US$ 17,2 milhões no câmbio da época. O tribunal deliberou a favor do antejulgamento em 20 de maio de 1993, Pérez se afastou do poder e o Congresso oficializou seu impeachment.

O ex-presidente foi processado e condenado, em 30 de maio de 1996, a dois anos e quatro meses de prisão por malversação agravada de fundos secretos, usados em parte para financiar, em 1990, o envio de uma missão policial à presidente Violeta Chamorro. Saiu em liberdade em 18 de setembro de 1996, mas não interrompeu sua atividade política, sendo eleito em novembro de 1998 senador por seu Estado natal de Táchira, apesar de estar em prisão domiciliar por um novo caso de corrupção que envolvia sua esposa Cecilia Matos.

Pérez recobrou sua liberdade para exercer o cargo de senador, mas em 1999 o Congresso foi substituído pela Assembleia Constituinte. O ex-governante se lançou como constituinte, mas não foi eleito, e pouco depois abandonou o país para evitar um novo julgamento.

Foi morar nos Estados Unidos, de onde periodicamente publicava notas com suas críticas quanto aos rumos do governo Chávez.

Com EFE e AFP

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