Corpo de Kirchner chega a Río Gallegos para ser sepultado

Ex-presidente será enterrado em cemitério municipal em cidade onde nasceu, no sul da Argentina

iG São Paulo |

O corpo do ex-presidente e líder peronista Néstor Kirchner, cuja morte deixou um vácuo de poder na Argentina, será sepultado esta sexta-feira em Río Gallegos (sul), sua cidade natal, após o último adeus de uma multidão que fez filas de 2 km durante 26 horas de velório em Buenos Aires.

O avião com o corpo de Kirchner chegou às 17h36 local (18h36 Brasília) à cidade de Rio Gallegos, onde Kirchner nasceu e deve ser enterrado em um cemitério municipal.

No voo em que foi transportado o corpo do ex-presidente, viajaram também sua mulher e presidente argentina, Cristina Kirchner, membros da família e altos funcionários do governo. O grupo foi recebido no aeroporto de Rio Gallegos pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Em Buenos Aires, uma multidão gritava "Voltarás e serás milhões!", relembrando a frase histórica de Evita Perón, entre bandeiras com as cores do país, azul celeste e branco. Pelas ruas, os argentinos pediam força à viúva Cristina.

Ao fim das honras fúnebres, na capela ardente do Salão dos Patriotas Latino-Americanos da Casa Rosada, a presidente liderou até o Aeroparque um cortejo de veículos, cuja passagem foi acompanhada por milhares de pessoas que agitavam bandeiras, cantavam, choravam e atiravam flores.

"Néstor não morreu, Néstor não morreu, vive nos corações do nosso povo trabalhador!", cantava a multidão, em um ato político carregado de sentimentos. A concetração de pessoas fez a Argentina reviver o clima de funerais históricos como o de Evita, em 1952, e o de seu marido e ex-presidente Juan Perón, em 1974.

Mística peronista

A morte de Kirchner, aos 60 anos, vítima de parada cardíaca, na residência de El Calafate (sul da Argentina), fez ressurgir a mística peronista, com o desfile de milhares de homens, mulheres e crianças pelo centro de Buenos Aires e pela Praça de Maio.

A presidente, que além do cônjuge, perdeu o companheiro de militância de toda a vida, recebeu pêsames e a solidariedade também de uma multidão de chefes de Estado, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil); Hugo Chávez (Venezuela); Fernando Lugo (Paraguai); Evo Morales (Bolívia); Rafael Correa (Equador); Sebastián Piñera (Chile); José Mujica (Uruguai); e Juan Manuel Santos (Colômbia).

Ao perder o político mais poderoso da Argentina, o país vive incerteza quanto a seu futuro político. Mas o principal artífice político do governo, a central operária CGT, renovou seu apoio, depois que seu líder, Hugo Moyano, afirmou que "depois de Perón e Eva, vem Néstor Kirchner".

Homenagens

Mas apesar do luto nacional, kirchneristas cantam sem pausa palavras contra Julio Cobos, que há dois anos passou à oposição sem renunciar à vice-presidência. "Vai embora, Cobos, você é um traidor!", gritava a multidão contra o político da social-democrata União Cívica Radical (UCR), hoje opositor ao governo.

Com a morte de Kirchner, a presidente Cristina se destaca como candidata natural do kirchnerismo para 2011, disse o chanceler Héctor Timerman.

Néstor Kirchner chegou ao poder como emergente da pior crise da história, devido ao colapso da economia, após o neoliberalismo implantado entre 1989 e 2001 pelos presidentes Carlos Menem e Fernando de la Rúa.

De seu governo, entre 2003 e 2007, se destacam a reforma da Suprema Corte, com juristas de prestígio, os julgamentos por crimes da ditadura (1976-1983), a estatização dos fundos privados de aposentadoria na crise, o cancelamento da dívida com o FMI e o ajuste quase total da dívida em 'default'.

Por opositores, ele foi criticado por manipular os índices de inflação e por traços autoritários, que despertaram ódios na esquerda e na direita, inclusive em setores peronistas, além do confronto com as corporações da mídia.

De temperamento explosivo, Kirchner enfrentou a Igreja Católica e representantes do setor agrícola, que combateram sua esposa com a maior greve da história do campo em protesto contra impostos sobre as exportações.

*Com AFP

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