Coreias estabelecem diálogo em clima de distensão

Reuniões desta terça e quarta-feira têm o objetivo de fixar a agenda, data e local de encontro de Defesa de maior nível

iG São Paulo |

As Coreias do Norte e do Sul estabeleceram nesta terça-feira um diálogo pela primeira vez desde o bombardeio de 23 de novembro contra a ilha sul-coreana de Yeonpyeong, em meio a sinais de distensão que podem levar à retomada das negociações de desarmamento nuclear do Norte.

Ao final do encontro, os coronéis sul-coreano Moon Sang-gyun e norte-coreano Ri San-kwon, dois veteranos desse tipo de negociação, decidiram manter um novo encontro na quarta-feira às 10 horas locais (23h desta terça-feira em Brasília) na zona fronteiriça de Panmunjom, informou a agência local "Yonhap".

O objetivo dos dois dias de encontro é fixar a agenda, lugar e data de uma reunião de Defesa de maior nível a fim de tratar assuntos pendentes e melhorar as más relações entre Seul e Pyongyang.

"Ambas partes tentam recortar diferenças sobre a agenda e os procedimentos para conversas militares do mais alto nível, tais como o nível dos representantes e a data", informou o porta-voz do Ministério sul-coreano de Defesa, Kim Min-seok.

A reunião de mais alto nível poderia ser protagonizada pelos ministros da Defesa das duas Coreias, algo que não ocorre desde 2007.

O Ministério da Defesa sul-coreano reiterou que a reunião de ministros não seria possível se a Coreia do Norte não se desculpar e se responsabilizar pelo ataque com quatro mortos à ilha sul-coreana de Yeonpyeong e do afundamento, em março de 2010, da embarcação militar sul-coreana "Cheonan" , quando morreram 46 tripulantes.

Os dois incidentes na zona fronteiriça do Mar Amarelo (Mar Ocidental) elevaram a tensão entre as duas Coreias e deterioraram as relações entre Seul e Pyongyang, além de causar uma paralisação brusca na ajuda humanitária e nos projetos conjuntos.

Uma fonte disse que, no encontro desta terça-feira, o Sul solicitou informações sobre o bombardeio à ilha e sobre o naufrágio da Cheonan. A Coreia do Norte nega ter torpedeado a embarcação.

Programa nuclear

A reuniões preliminares, as primeiras com caráter militar desde setembro, eliminam um dos obstáculos para o possível reinício do processo multilateral pelo qual potências mundiais ofereceriam ajuda em troca de a Coreia do Norte abandonar seu arsenal atômico.

Mas analistas permanecem céticos sobre as motivações de Pyongyang ao retomar esse processo, lembrando que o regime comunista já renegou promessas anteriores de se desarmar, e acabou usando doações para desenvolver seu programa nuclear, em vez de fins humanitários.

Depois de despejar bilhões de dólares no miserável país vizinho nas últimas duas décadas, Seul agora insiste que só enviará ajuda quando o Norte desmantelar totalmente seu programa nuclear.

"Quando eles (Coreia do Norte) precisam de algo, o que normalmente significa dinheiro, eles primeiro elevam as tensões, aí passam para a ofensiva de charme e começam a conversar para obter alguma coisa", disse Andrei Lankov, especialista em Coreia do Norte na Universidade Kookmin, em Seul. "Se eles não obtêm o que conseguem, voltam a chave para o modo de confronto."

Sob pressão dos Estados Unidos e da China, as duas Coreias reduziram o tom da sua retórica nas últimas semanas, concordando em manter negociações bilaterais. Isso seria o primeiro passo para a retomada do processo mais amplo, envolvendo EUA, China, Japão, Rússia e as duas Coreias.

O coronel norte-coreano Ri Son-kwin deu tapinhas no ombro de seu homólogo sul-coreano, o coronel Moon Sang-gyun, e os dois apertaram as mãos antes do início do evento na aldeia fronteiriça de Panmunjom. Os dois já se encontraram várias vezes nos últimos anos.

As duas Coreias permanecem tecnicamente em guerra, pois o conflito de 1950 a 1953 terminou com um armistício, e não com um tratado de paz. Dezenas de escaramuças e incidentes violentos ocorreram desde então.

Denúncia contra Pyongyang

A Coreia do Norte castigou severamente os soldados de uma mina de urânio por terem protagonizado um protesto em janeiro para denunciar a escassez de alimentos, informou um grupo de refugiados norte-coreanos nesta terça-feira na Coreia do Sul.

A organização Solidariedade de Intelectuais Norte-Coreanos (NKIS) indicou em seu site que uma brigada encarregada especialmente de extrair urânio se negou a operar em meados de janeiro após três dias sem mantimentos.

O presidente da NKIS, Kim Seung-kwang, consultado pela agência "Yonhap", disse que um oficial norte-coreano revelou à organização que os serviços de segurança foram imediatamente destacados para o local para "tomar medidas drásticas" contra os soldados que tinham se negado a trabalhar, sem dar mais detalhes.

O Ministério da Unificação sul-coreano assinalou que está investigando a informação da NKIS, mas que ainda não pôde confirmá-la. Vários refugiados norte-coreanos que recentemente desertaram para a Coreia do Sul asseguraram que em seu país existem problemas de alimentos que afetam o Exército.

A NKIS indicou que sete soldados teriam morrido de fome nos últimos meses na Coreia do Norte em uma unidade destacada no sudeste do país. A Coreia do Norte, um dos países mais pobres da Ásia, sofre uma grande escassez por causa das sanções internacionais contra seu programa nuclear.

*Com Reuters e EFE

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