Coreia do Sul perde grande impulsor da reconciliação com Norte

Seul, 18 ago (EFE).- O ex-presidente Kim Dae-jung foi uma das figuras mais importantes da democracia sul-coreana e o grande impulsor da política de reconciliação com a Coreia do Norte, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz.

EFE |

Kim Dae-jung morreu hoje de complicações cardíacas aos 85 anos - segundo a tradição coreana que conta a idade desde a gravidez materna - após ter conquistado o respeito da classe política de seu país pela luta pela democracia como ativista e por sua aproximação à Coreia do Norte como presidente (1998-2003).

Foi o primeiro político da Coreia do Sul a se reunir com o ditador norte-coreano, Kim Jong-il, durante a histórica cúpula de 2000 em Pyongyang, que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz nesse mesmo ano.

O ex-presidente era muito respeitado por seu histórico de luta pela democracia em um país que viveu sob uma ditadura até meados dos anos 80, período em que ele mesmo sofreu várias tentativas de assassinato, uma condenação à morte e ficou exilado por um longo tempo.

Foi também o primeiro presidente a chegar ao poder à frente da oposição progressista, já com mais de 70 anos, após passar uma década em prisão domiciliar, cinco anos na prisão e vários outros no exílio.

Sua carreira como ativista democrático começou pouco após o fim da Guerra da Coreia (1950-1953) e atuou como defensor da democracia em plena sucessão de ditaduras militares, até meados dos anos 80.

Declarado inimigo político do então ditador sul-coreano, o general Park Jung-hee, em 1973 foi sequestrado em Tóquio em uma tentativa de assassinato encoberta pelo serviço secreto do país. A espionagem americana evitou sua morte.

Outro dos episódios decisivos em sua vida foi o papel que teve nos protestos pró-democráticos de Gwangju contra o mandato de outro general, Chun Doo-Hwan, nos quais 200 pessoas morreram após uma sangrenta repressão.

Kim foi condenado à morte por encorajar o protesto, mas depois a pena foi reduzida a 20 anos de prisão. Ele acabou ficando no exílio até 1985, ano do começo da transição democrática na Coreia do Sul.

Foi vencedor das eleições em 1997 com 40% dos votos e pela primeira vez um partido opositor e progressista tomou o poder na Coreia do Sul, o que inaugurou um período de dez anos de Governos reformistas.

O então líder tirou o país da crise financeira e apostou na aproximação intercoreana com uma política de reconciliação ambiciosa que nunca antes tinha sido tentada.

Kim Dae-jung e o ditador norte-coreano, Kim Jong-il, protagonizaram em 2000 a primeira reunião entre líderes de ambos os lados da península dividida, algo copiado por seu sucessor na Presidência, Roh Moo-hyun, em 2007.

Na reunião de então, foi assinado um acordo histórico que favoreceu a reconciliação nacional, a diminuição das tensões militares e a cooperação econômica, além de ter facilitado o reencontro de famílias separadas à força pela guerra.

Poucos meses após sua visita ao Norte, recebeu o Prêmio Nobel da Paz "por seu trabalho pela democracia e os direitos humanos na Coreia do Sul e pela paz e a reconciliação com a Coreia do Norte".

No entanto, Kim Dae-jung não ficou de fora da polêmica que costuma cercar todos os presidentes sul-coreanos e se viu envolvido em escândalos de corrupção familiar e na revelação em 2003 de que a reunião de Pyongyang foi, em parte, graças a um pagamento de US$ 500 milhões ao regime comunista.

Sua morte, embora não tão inesperada como a de seu sucessor na Presidência, Roh Moo-hyun, que se suicidou em maio passado, foi muito sentida pelo povo coreano que o respeitava, apesar de ter se posicionado claramente contra o atual chefe de Estado, o conservador Lee Myung-bak.

"Perdemos um grande líder. O povo lembrará dele por seu compromisso com a democracia e a reconciliação nacional", disse Lee hoje após saber da morte do ex-presidente. EFE jmr/rr

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