Coração xiita de Bagdá bate livremente com o fim da guerra

Bairro conhecido por rigidez em código islâmico vive novos ares, com cafés movimentados, jogos e festas de casamento

The New York Times |

É muito cedo para declarar primavera em Sadr? Em um bairro conhecido por seus milicianos vestidos de negro e pelo rigoroso código islâmico, essa foi a cena vislumbrada em uma noite recente: jovens com cortes de cabelo angulares jogando sinuca em mesas colocadas na calçada, cafés movimentados com fumantes de narguilé e filmes americanos, uma festa de casamento com tambores, estúdios de foto exibindo imagens de mulheres com os ombros descobertos.

Tudo isso teria sido perigoso um ou dois anos atrás, mas agora representa apenas mais uma noite neste bairro que é o coração xiita de Bagdá.

Conforme o governo do Iraque permanece congelado em uma paralisação de sete meses, a transformação vibrante de Sadr pode oferecer uma visão profética do próximo capítulo do país: reprimido por Saddam Hussein, temido na sua resistência à invasão liderada pelos Estados Unidos e brutal na sua repressão religiosa, o bairro está se tornando uma mistura de vida secular e religiosa que é tanto ad hoc quanto contagiosa.

Grande parte dos últimos sete anos aqui, pertence ao Exército de Mahdi, uma milícia leal ao clérigo Muqtada al-Sadr, que impôs uma interpretação rigorosa ao Islã. Os moradores se abrigaram em casas superlotadas e pais não permitiram que seus filhos saíssem depois do escurecer. Mas conforme a polícia e o Exército iraquianos tomaram controle, Al-Sadr refez a si próprio e a seus seguidores como uma força eleitoral, ganhando 40 cadeiras na eleição nacional em março.

Seu poder não está mais nas ruas, mas no parlamento. Por sua vez, o Exército Mahdi, cuja violência ameaçou marginalizar os sadristas, está deixando os moradores agir.

Memórias

Memórias do passado permanecem perto da superfície. Ali Kraibit, que abriu um salão de sinuca ao ar livre, vê suas mesas como um produto da história. Primeiro, Hussein proibiu todas as observâncias xiita, ele disse. “Depois disso, naturalmente as pessoas buscaram abrigo na religião”, disse. “Mas agora, as pessoas já tiveram bastante disso. Elas estão aliviadas. Elas perceberam que estão livres”.

Ainda assim, permanece um certo nível de cautela. Uma porta não marcada em uma das ruas principais do bairro leva a um café que abriu há cinco meses no segundo andar, batizado de Orange Juice. O nome vem de uma música cujo vídeo é bastante racista. O gerente, Nawar Sabah, disse que a loja foi aberta somente para pessoas que ele conhecia porque trazer estranhos pode causar problemas. Na maioria das noites, os clientes assistem a jogos de futebol ou filmes de ação americanos e fumam narguilé. “As pessoas veem aqui e falam livremente sobre o que querem”, disse.

Ele disse que o proprietário teve de prestar juramento no gabinete sadrista de proibir o consumo de álcool e drogas. A nova permissividade na cidade de Sadr, disse ele, não significa um afastamento da religião. “Você vê meu cabelo e roupas”, disse ele, apontando para o logotipo da Nike na sua camisa. “Mas na sexta-feira eu vou para as orações. Essa é uma nova atitude para uma nova geração”.

*Por John Leland

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