Consulta popular divide grupos étnicos de Santa Cruz

Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) - Apontado pelo governo do estado boliviano de Santa Cruz como possível palco de conflitos durante a consulta popular convocada para amanhã (4), o bairro da cidade de Santa Cruz de la Sierra, Plan Tres Mil, está dividido sobre o questionamento que se fará aos moradores do estado: se concordam com a autonomia em relação ao governo central.

Agência Brasil |

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Na feira popular do bairro, onde, teoricamente, está o maior número de simpatizantes do presidente Evo Morales, é possível encontrar até quem defenda o chamado Estatuto Autônomo de Santa Cruz.

É possível constatar também como a consulta está acirrando um conflito histórico que, para muitos, vai interferir no resultado de amanhã: as diferenças étnicas e sociais entre cambas e collas, termos que designam, respectivamente, os que nasceram em Santa Cruz e os que vêm de outros estados.

Originalmente, os dois termos serviam para distinguir os descendentes dos povos indígenas guaranis, provenientes do altiplano boliviano (cambas) daqueles que chegavam de regiões antes ocupadas pelos incas, sobretudo La Paz, Potosí e Sucre.

Em geral, os cambas tendem a ser identificados como favoráveis à autonomia de Santa Cruz, enquanto os collas, sobretudo os mais politizados, rejeitam o estatuto. Porém, em toda Santa Cruz de la Sierra, é possível encontrar exceções. Há pessoas que, apesar de ter nascido no estado, não reconhece a legitimidade da consulta deste domingo, e pessoas que, vindas de outras localidades, acreditam que o estatuto beneficiará a região.

A dona-de-casa Antonia Flores diz ser favorável ao estatuto por saber exatamente o que significa a autonomia. A autonomia é para que todos sejamos iguais e para que o nosso dinheiro não vá para La Paz, onde outros se aproveitem daquilo que é obtido aqui, explicou.

Na opinião do aposentado Mario Gusmán Peñarada, que vive há 22 anos em Santa Cruz,  desde que deixou o Chile, a autonomia vai mudar para melhor a situação do estado. Com o centralismo, tudo tem de ser resolvido fora daqui. Se alguém quer um documento tem que ir a La Paz. Se amanhã ganhar o sim, teremos progresso, ruas asfaltadas, mercados, alegou.

Já para o feirante Isidro Oreliano, que há 15 anos trocou o estado de Cochabamba por Santa Cruz, a consulta de amanhã é uma chantagem das elites bolivianas contra o governo do presidente Evo Morales. Oreliano reconhece que as divergências entre cambas e collas pode favorecer os que querem a autonomia de Santa Cruz, mas, para ele, isso é mero regionalismo e egoísmo. Ele acredita que a real motivação da consulta seja a luta pelo poder político.

Esta consulta, ilegal, foi acertada pelos oligarcas. Um referendo tem de ser convocado pelo Congresso Nacional. Para isso, temos um Parlamento, afirmou o feirante. Ele completa :eu gostaria de saber por que aquilo, que eles agora dizem ser necessário, não foi feito durante os 185 anos em que eles dominaram o país. Por que só agora estão fazendo isso, quando um governante indígena está no poder?.

Apesar de só admitir só ter tido conhecimento do estatuto pelos debates e pela propaganda da TV, a feirante Maribel Jorras disse que tem informação o suficiente para decidir: vai votar pela autonomia. Não li o estatuto. Não tive tempo, mas o conheço pelo que escutei e pelo que temos visto na TV. Vai ser bom para Santa Cruz. Haverá mais trabalho, afirmou.

A secretária executiva aposentada, Gladys Avalo Leon, discorda de Maribel. Para ela, a maioria das pessoas não se inteirou do estatuto e os que querem a vitória do sim, neste domingo, se favorecem da animosidade entre cambas e collas. A gente pobre está consciente de que os que são a favor do estatuto lançaram panfletos que incentivam o ódio contra os collas. Isso já é racismo e me dói muito. Minha filha é colla, mas seu marido é camba, como os seus filhos, relatou a secretária.

Gladys, que há 25 anos vive em Santa Cruz, enfatizou que, de certa forma, todos são favoráveis a que os estados tenham mais poder de decisão. Mas, para ela, da forma como a autonomia está prevista no estatuto, favorece ao separatismo. "Já votamos pela autonomia antes e ela ganhou. A consulta deste domingo é para os ricos. O que eu captei é que, desde que Morales chegou à presidência, há uma luta entre ricos e pobres", opinou.

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