Construção de mesquita em Nova York divide opiniões nos EUA

Projeto de construir centro cultural islâmico a dois quarteirões de local de ataques do 11 de Setembro causa polêmica no país

Silvana Mautone, especial para o iG, de Nova York |

Um velho prédio desocupado de cinco andares na rua Park Place, a dois quarteirões do local onde ficavam as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, está no centro de uma das mais recentes polêmicas nos Estados Unidos.

No local, está prevista a construção de uma mesquita e de um centro cultural islâmico . A decisão tem desatado a ira de inúmeras pessoas que consideram a iniciativa uma provocação às famílias das vítimas do 11 de Setembro de 2001, que deixaram quase 3 mil mortos em ataques lançados com aviões em Nova York, Washington e Pensilvânia .

Os partidários do projeto, por sua vez, defendem o direito de liberdade de culto e argumentam que a iniciativa, entre outros objetivos, visa a promover o diáligo inter-religioso.

AP
Obama (centro) discursa durante jantar Iftar, parte do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos (13/08/2010)
Em 13 de agosto, o presidente Barack Obama falou pela primeira vez sobre o assunto. Durante um jantar na Casa Branca no qual celebrou o início do Ramadã , o mês sagrado do Islã, ele defendeu a construção da mesquita próximo ao WTC .

“O compromentimento dos Estados Unidos com a liberdade de religião é inabalável”, afirmou Obama. “Como cidadão e como presidente, eu acredito que os muçulmanos têm o mesmo direito de praticar sua religião como qualquer um neste país.” Na ocasião, Obama disse que é legítima a construção da mesquita em um prédio privado naquela região da cidade.

No dia seguinte às declarações do presidente americano, que reiterou seu apoio ao projeto na quarta-feira , os jornalistas dos principais meios de comunicação americanos e do exterior estavam mais uma vez na porta do edifício para perguntar às pessoas na rua o que achavam da ideia de um centro islâmico no local.

Repercussão

O designer de brinquedos aposentado Jesse Horowitz, de 72 anos, que mora no bairro Chelsea, não muito distante dali, foi de bicicleta até a Park Place tirar fotos do prédio. “Quero registrar como o edifício é hoje”, afirmou ao iG .

Horowitz, que nasceu em uma família judia mas atualmente não pratica nenhuma religião, diz reconhecer o direito legal dos muçulmanos de construir a mesquita, mas acha que, por uma questão de “bom senso”, eles poderiam escolher um local menos polêmico.

“Como presidente dos EUA, Obama não poderia ter dito nada diferente do que disse, mas é insensível a decisão de construir um centro islâmico tão próximo de onde foi o atentado”, diz Horowitz, que era amigo de um dos bombeiros que morreram no desmoronamento das torres.

Pessoas que trabalham na rua Park Place não se sentem à vontade para falar sobre o tema. Em uma loja da operadora de telefonia AT&T há poucos metros do prédio onde deve ser construída a mesquita, o gerente disse não ter nenhuma objeção ao projeto, mas logo quis encerrar a conversa e preferiu não divulgar seu nome.

Numa mercearia na esquina da rua, a reação foi parecida. Funcionários se recusaram a falar a respeito e pediram para a reportagem do iG procurar o gerente que, a contragosto, identificou-se apenas como Muhammad, tradicional nome muçulmano, e limitou-se a dizer que não vê problema na ideia. Segundo ele, alguns funcionários de vez em quando vão rezar ali – há algum tempo funciona informalmente no prédio uma mesquita improvisada.

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, também já manifestou seu apoio ao projeto. Ele afirmou que a mesquita na Park Place é uma forma de provar que nos Estados Unidos prevalece a tolerância religiosa.

Pesquisas de opinião, porém, indicam que a maioria dos nova-iorquinos se opõe à ideia. Segundo levantamento da TV americana CNN, divulgado na semana passada, 68% dos entrevistados são contrários à iniciativa e 29% a favor.

No início do mês, a última barreira legal para a construção da mesquita foi revogada . Em 3 de agosto, a Comissão de Preservação de Monumentos Históricos de Nova York votou por unanimidade contra o tombamento do edifício. Na prática, a decisão autoriza sua demolição para a construção do centro islâmico.

Nem por isso os grupos contrários à ideia se deram por vencidos. Eles conseguiram na Justiça o direito de veicular nos ônibus que circulam por Manhattan anúncios publicitários relacionando a nova mesquita aos terroristas islâmicos que praticaram o atentado de 2001. Esses mesmos grupos prometem uma grande manifestação de protesto para o próximo dia 11 de setembro, quando os ataques completarão nove anos.

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