Conselho garante eleições na Venezuela mesmo com "apagões"

Popularidade e projeto de revolução de Chávez serão testados domingo, quando 17 milhões devem ir às urnas eleger assembleia

iG São Paulo |

A presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, Tibisay Lucena, garantiu neste sábado a realização das eleições legislativas deste domingo, mesmo em caso de problemas técnicos ou falhas no sistema de energia elétrica do país, abalado por uma crise energética e pelas fortes chuvas das últimas horas.

"Todas as nossas máquinas de votação têm baterias que podem funcionar por 14 horas com ou sem apagão", o que garantirá ao eleitorado "um ato de votação sem interrupções, como estabelece a lei", explicou Lucena, em entrevista exclusiva à rede Telesur.

Reuters
Votação na Venezuela ocorre neste domingo
Segundo ela, o governo e as Forças Armadas, assim como o CNE, já tomaram "extremas medidas de segurança nos pontos críticos de nosso sistema elétrico", afetados principalmente por uma grave seca que atingiu a Venezuela nos últimos meses, situação desencadeada pela baixa expansão e ausência de investimentos no setor.

Já em relação à expectativa do conselho para o pleito, Lucena disse que a avaliação realizada pela autoridade eleitoral aponta que "os eleitores deram mostras de maturidade e consciência". Espera-se nestas votações que a afluência seja positiva, após a alta abstenção do pleito anterior, em 2005, marcado pelo boicote da oposição, que decidiu não se apresentar, como forma de protesto.

Segurança

O chefe do Comando Estratégico Operacional (CEO) das Forças Armadas da Venezuela, general Henry Rangel Silva, informou que não foram registradas alterações da ordem pública e prognosticou que as eleições legislativas serão tranquilas.

"Tudo ocorreu com total normalidade, não há informes de pessoas que tenham atentado contra algum centro de votação. Isso indica que teremos eleições bem tranquilas", declarou Rangel Silva, ao reportar à imprensa local a situação deste sábado, dia prévio ao pleito.

Reuters
Placa em frente a uma das maiores favelas de Caracas, na Venezuela, deixa clara proibição do uso de armas em dia de eleição
De acordo com a Agência Venezuelana de Notícias (AVN), houve apenas um registro no país, em El Paraíso -- onde quatro máquinas que captam impressões digitais e laptops desapareceram. "Contudo, já foi tomada a decisão de inabilitar eletronicamente as máquinas, ou seja, elas não poderão ser usadas", continuou o comandante.

Ele ainda recordou que as operações de segurança foram intensificadas, assim como as atividades para garantir que o processo ocorra sem inconvenientes, como eventuais quedas de energia. Para as votações deste domingo, foram designados pelo menos 130 mil agentes.

Desde a quarta-feira passada está suspensa a permissão do porte de armas em todo o território venezuelano, medida que será levantada na terça-feira, às 18h locais (19h30 no horário de Brasília). Também estão proibidos o consumo e a comercialização de bebidas alcoólicas, decisão que vai até às 6h locais da próxima segunda-feira.

Eleição

A popularidade do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e de seu projeto de revolução serão avaliados nas urnas neste domingo, quando mais de 17 milhões de venezuelanos são esperados nas urnas para definir a recomposição do Parlamento, governado durante cinco anos por uma maioria governista.

Há 11 anos no poder, o presidente  aposta em sua popularidade para conseguir votos. "Chávez sabe que estão em jogo as eleições de 2012, que junta a escolha simultânea para governadores, prefeitos e presidente", afirmou o analista político Javier Biardeau, professor da Universidade Central da Venezuela.

AP
O presidente Hugo Chávez pediu aos eleitores "uma vitória por nocaute" para defender o "socialismo bolivariano"
Durante a campanha, o presidente percorreu vários Estados do país em caravanas que foram seguidas por milhares de simpatizantes, convertendo essa eleição parlamentar, mais uma vez, em um plebiscito sobre sua futura candidatura à reeleição, em 2012, e sobre o projeto de construção do chamado "socialismo do século 21".

"Imagine se um esquálido (opositor) voltasse a governar em Miraflores (sede do governo)? Tomariam de volta tudo o que a revolução deu para vocês, coisa que não é nenhum favor do governo e sim um direito do povo, de viver com dignidade. Por isso, enquanto Chávez for presidente, continuarei trabalhando sem descanso com os deputados da revolução", afirmou o presidente.

Para esse domingo, Chávez pediu a seus simpatizantes "uma vitória por nocaute" para defender o "socialismo bolivariano". "Não menos de dois terços (do Parlamento), esse é o calibre da vitória", afirmou Chávez, na semana passada, durante um comício de campanha.

Pesquisas

De acordo com pesquisas de opinião, a base governista deverá conquistar a maioria das cadeiras do Parlamento. No entanto, o chavismo corre o risco de perder a maioria qualificada das 165 vagas em disputa, o que permitiria à oposição frear a aprovação de leis que permitam radicalizar o projeto da revolução bolivariana.

AFP
Eleições legislativas de domingo são cruciais para oposição retomar poder na assembleia
Se o governo conquistar a maioria simples, entre 99 e 109 das vagas no Parlamento, estará obrigado a negociar com a oposição para a aprovação de leis orgânicas e nomeação de representação das Cortes dos país. Com 110 parlamentares, o governo alcança a maioria qualificada e poderá aprovar leis estruturais sem o apoio dos opositores.

"A cifra mágica para a radicalização será 125 deputados. Se consegue isso tem luz verde para seguir", afirmou Javier Biardeau. Se obtiver essas 125 vagas - cenário quase improvável de acordo com as pesquisas -, o governo poderá interpretar este resultado como um sinal de que deve pisar o acelerador das reformas.

Oposição

A oposição, por sua vez, também vê o pleito legislativo como uma oportunidade para disputar o poder com o chavismo, na esteira do descontentamento de alguns setores que antes simpatizavam com o governo.

"Vamos conquistar o que o país está esperando: uma Assembleia Nacional multicolor, que governe para todos", afirmou o candidato opositor Julio Borges, membro da Mesa da Unidade Democrática, grupo que reúne as candidaturas dos partidos opositores.

Para o analista Edgardo Lander, a volta da oposição ao Parlamento fortalece o sistema democrático representativo do país e fragiliza o chamado "braço golpista" da oposição, que a seu ver, foi determinante para levar os legisladores anti-chavistas a se retirarem da disputa eleitoral de 2005, entregando o controle absoluto da Assembleia Nacional à maioria governista. "Este grupo descartava por completo a via eleitoral e o trabalho político. A lógica desse setor era que era preciso derrubar Chávez e buscar apoio do Departamento de Estado dos Estados Unidos", afirmou.

Para o analista político Javier Biardeau, o novo Parlamento passará a ser uma "caixa de ressonância" das diferentes correntes políticas do país. A seu ver, os parlamentares governistas, que legislaram durante cinco anos sem adversário político, "terão de reconhecer que há uma diversidade de forças além do chavismo no Parlamento, que terão voz política e que, além disso, estarão apoiados por todos os meios de comunicação privados", afirmou.

Edgardo Lander acredita que a oposição tende a se fortalecer nessas eleições, porém, considera "pouco provável" que consiga organizar uma candidatura unitária capaz de fazer frente à liderança do presidente venezuelano. Esse cenário, no entanto, pode ser alterado, caso a oposição conquiste uma maior quantidade de votos nas eleições legislativas em relação ao governo. "Se isso ocorre, pode haver maiores riscos para a candidatura à reeleição presidencial em 2012, mas ainda assim, é improvável uma derrota de Chávez", afirmou.

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral, 150 observadores internacionais e 60 convidados de partidos políticos estrangeiros acompanharão o pleito deste domingo. Mais de 12 mil centros de votação serão protegidos por cerca de 250 mil militares. O voto na Venezuela é facultativo.

Com informações da Ansa e BBC Brasil

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