Javier Martín. Teerã, 29 jun (EFE).- O Conselho de Guardiães emitiu hoje o veredicto que muitos temiam e confirmou a polêmica reeleição do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, no conturbado pleito do dia 12 último, que a oposição denunciou como fraudulento.

Segundo a TV estatal, o conselho, encarregado de validar os resultados, não encontrou grandes irregularidades após uma apuração em 10% das urnas, escolhidas de forma aleatória em todo o país.

"O secretário-geral do conselho, aiatolá Ahmad Jannti, informou por carta tanto ao Ministério do Interior como aos candidatos" derrotados, como afirmou a fonte.

Na carta, o clérigo dizia que "podem ser confirmados os resultados das décimas eleições presidenciais", já que foram achadas "irregularidades pequenas e frequentes em qualquer pleito".

"Não são significativas e as denúncias (de fraude) são infundadas", assinalou.

Poucas horas antes de o processo começar "diante das câmeras da TV estatal", um dos candidatos derrotados, o reformista Mehdi Karrubi, voltou a destacar que a única solução aceitável é a repetição das eleições.

Uma postura compartilhada pelo também reformista Mir Hussein Moussavi, que a oposição aponta como ganhador e que denunciou uma fraude "em massa e premeditada" a favor de Ahmadinejad, e que insiste em que não aceita a apuração.

Representantes de Moussavi se reuniram no domingo com o conselho para apresentar uma nova proposta.

O porta-voz dos guardiães, Abbas Ali Khadkhodai, disse em princípio que a nova proposição era "positiva" e que seria estudada, porém mais tarde qualificou o encontro de infrutífero.

A confusão parece reinar em torno do conselho, que não conseguiu convencer os candidatos derrotados.

Tanto Moussavi como Karrubi rejeitaram esta semana participar de uma comissão especial proposta pelo Conselho de Guardiães para supervisionar a apuração, ao considerarem que isso não poderia ser "imparcial".

Além disso, o principal órgão eleitoral deixou entrever suas cartas ao afirmar que existiam irregularidades, mas que essas se emolduravam nos erros "frequentes" em qualquer processo eleitoral, por isso descartava a proposta da oposição para que se repetissem as conflituosas eleições.

Entre as anomalias admitidas se destaca o fato de que em pelo menos 50 cidades houve mais votos que cidadãos recenseados, o que afetaria cerca três milhões de votos.

Perante essa situação, poucos eram os que confiavam hoje que a apuração parcial serviria para acabar com todas as dúvidas que pairavam sobre um processo que gerou os maiores protestos populares nos 30 desde a revolução islâmica.

Enquanto a apuração avançava, a oposição buscava novas iniciativas para continuar com os protestos e evitar a repressão policial.

Na internet, circula desde sábado passado uma espécie de guia para a resistência pacífica, que inclui desde o boicote aos produtos que são anunciados na televisão, até a recomendação de não tratar com a imprensa e agências estatais.

Além disso, pede aos iranianos que depositem um papel com o nome de Moussavi nas urnas de caridade distribuídas por todo Irã para que o regime "veja qual é o verdadeiro apoio popular" do ex-primeiro-ministro.

Igualmente, exige aos cidadãos que continuem saindo às janelas e varandas às 22h (14h30, Brasília), para gritar "Alahu Akbar" (Deus é o maior), ação que vem se repetindo desde que há duas semanas se soube da polêmica reeleição de Ahmadinejad.

Os polêmicos resultados eleitorais geraram uma onda de protestos que foram reprimidos com violência pelas forças de segurança iranianas, apoiadas por grupos de milicianos islâmicos (Basij).

Nos distúrbios morreram cerca de 20 pessoas, segundo números oficiais, e mais de mil foram detidas.

Hoje, a Polícia antidistúrbios e os milicianos voltaram a tomar as ruas de Teerã, em especial a avenida onde a oposição tinha convocado uma corrente humana.

A polêmica, além disso, expôs as divergências que existem dentro da opaca cúpula de poder no Irã, também estendida ao Parlamento.

No domingo, o ex-presidente iraniano Mohamad Khatami, que apoia Moussavi, compareceu perante Comissão de Segurança Nacional e Política Exteriores do Parlamento iraniano para examinar os resultados, e também os protestos e os distúrbios posteriores.

Perante a citada comissão, também passaram o próprio Moussavi e o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanyani, um dos homens mais poderosos do país.

Hoje, a comissão se transferiu à cidade santa de Qom para abordar a polêmica com dois dos grandes aiatolás, enquanto se espera nos próximos dias o comparecimento de Ahmadinejad. EFE jm/rr

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