Confrontos violentos no Líbano se espalham pelo país

BERITUTE - Após quatro dias de violentos confrontos em Beirute, várias outras regiões do país passaram a ser palco de episódios de violência, como a segunda cidade mais importante, Trípoli, além de várias cidades nas montanhas ao leste da capital libanesa. Na tarde deste domingo, começaram combates entre o Partido Socialista Progressista (PSP), liderado pelo druso Walid Jumblatt, e o grupo xiita Hezbollah na região do Monte Líbano.

BBC Brasil |

Reuters
Hezbollah decide interromper presença armada
Várias cidades registram confrontos, entre elas Aley, Shweifat, Barsoun, Aitat, Keyfoun e Kmatyeh. Todas ficam na região montanhosa habitada pela comunidade drusa.

Jumblatt, que foi acusado pelo Hezbollah de traição, pediu ao líder druso rival Tarslan Arslan, que é aliado do Hezbollah, que intermediasse o fim dos confrontos.

O Hezbollah exigiu que todos os escritórios do partido de Jumblatt no Monte Líbano e na região de Hasbaya, outro reduto druso no sul do Vale do Bekaa, sejam entregues à oposição.

Os militantes do PSP concordaram em entregar as armas, mas o cessar-fogo, que estava marcado para às 18h, no horário local (12h em Brasília), não foi respeitado e o Exército libanês ainda não foi capaz de posicionar suas tropas na região para acabar com os combates.

Na segunda cidade mais importante do Líbano, Trípoli, no norte do país, também foram registrados confrontos, que começaram na noite de sábado e continuam neste domingo.

Simpatizantes do Hezbollah e partidários do governo se enfrentaram nas ruas de Trípoli, munidos de metralhadoras e granadas.

Milhares de pessoas fugiram de suas casas e três pessoas foram mortas em Trípoli no sábado.

Neste domingo, o Exército libanês ocupou a cidade para tentar restaurar a segurança.

No Cairo, a Liga Árabe divulgou um comunicado pedindo um cessar-fogo urgente.

Aeroporto fechado
Já na capital Beirute, a oposição aumentou a quantidade de bloqueios em vários pontos da cidade, no dia seguinte à trégua entre o governo e o grupo xiita Hezbollah, que retirou suas milícias das ruas a pedido do Exército libanês.

O aeroporto internacional da capital continua fechado e na manhã deste domingo a oposição enviou mais caminhões com montes de terra para reforçar as barreiras.

A fronteira leste do Líbano com a Síria permanece bloqueada, restando somente as estradas que levam às fronteiras do norte do país.

Mesmo assim, milhares de libaneses estão se refugiando no país vizinho para fugir da violência.

Medidas revogadas
No sábado, o Exército libanês revogou duas medidas contra o Hezbollah que geraram uma onda de violência que culminou com a tomada de poder de todo o oeste da capital pelo grupo xiita.

O chefe de segurança do aeroporto, que foi demitido por ter ligações com o grupo, foi restituído ao posto e o Exército afirmou que lidaria com a questão da rede de comunicações do Hezbollah - que tinha sido declarada ilegal pelo governo libanês.

A decisão do Exército de intervir ocorreu após o primeiro-ministro, Fuad Siniora, ter feito um apelo para que a instituição reinstale a segurança no país.

Tropas e blindados militares patrulhavam as ruas desertas de Beirute neste domingo sem abrir, no entanto, as ruas bloqueadas pelos militantes da oposição.

O total de mortos nos confrontos, que começaram na última quarta-feira e colocaram o país à beira de uma guerra civil, já chegou a 40 pessoas.

As tensões continuam altas no Líbano, e a trégua obtida no sábado pelo comando militar é frágil, segundo analistas no país.

Segundo eles, novos confrontos podem explodir em Beirute e em outras cidades.

Poder de decisão
A facilidade com que o Hezbollah derrotou os militantes pró-governo nas ruas provou que o grupo xiita é a maior força militar do Líbano, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para a professora e PhD em Ciência Política pela Universiade de Harvard, Sophie Saade, a oposição humilhou decisivamente o governo libanês e o movimento 14 de Março, sua base de apoio.

"Depois das derrotas nas ruas [confrontos], os políticos governistas começaram os discursos para atenuar a humilhação sofrida diante de seus correligionários", disse ela.

Siniora, em sua primeira declaração pública desde o início dos confrontos, disse que o Líbano não podia mais tolerar que o Hezbollah tenha armas.

Ele pediu ao Exército que restaurasse a lei e a ordem e retirasse os homens armados da ruas.

"Mas a trégua provou que quem tinha o poder de decisão era o Hezbollah e a oposição. O governo e o Exército ficaram com a sensação de impotência", completou Saade.

A derrota dos governistas foi também uma derrota para os Estados Unidos, na opinião do diretor do Carnegie Middle East Center, Paul Salem, que diz que o governo Bush era o principal aliado do governo Siniora contra a influência da Síria e do Irã, países que apóiam o Hezbollah.

Segundo ele, os eventos dos últimos dias provaram que a balança de poder se alterou.

"A oposição mostrou ao povo libanês que está mais perto de decidir sobre o futuro do país do que os partidos governistas", disse ele.

O Líbano vive uma crise política há mais de um ano e está sem presidente desde novembro do ano passado quando o pró-sírio Emile Lahoud deixou o cargo.

Governistas e oposição não conseguem chegar a um acordo sobre a formação de um futuro governo e novas leis eleitorais.

Apesar de ambas as facções políticas terem como consenso o comandante do Exército, general Michel Suleiman, para a presidência do país, já houve o adiamento de 18 sessões do parlamento para elegê-lo.

Leia mais sobre: Líbano

Leia também

  • Hezbollah toma oeste de Beirute e nega "Golpe de Estado"
  • Primeiro-ministro diz que nunca declarará guerra ao Líbano
  • Exercito libanês investigará rede de telecomunicação do Hezbollah
    • Leia tudo sobre: líbano

      Notícias Relacionadas


        Mais destaques

        Destaques da home iG