Confrontos revelam espírito rebelde do povo grego

Os tumultos que se alastraram pela Grécia nos últimos dias ajudam a explicar por que o mais importante dia no calendário nacional grego é o Oxi, ou dia do Não. O dia Oxi comemora um evento ocorrido no dia 28 de outubro de 1940, quando o líder grego Ioannis Metaxas usou esta única palavra para responder a um ultimato de Mussolini, que pedia permissão para invadir a Grécia.

BBC Brasil |

O Não grego levou a nação à Segunda Guerra Mundial.

Quando os gregos dizem não, são categóricos. A rebeldia está profundamente enraizada no espírito grego.

Os estudantes - adolescentes e crianças - que estão fazendo cercos nas delegacias de polícia e tentando derrubar o governo estão na verdade vivenciando ritos de passagem.

Eles podem pertencer à geração iPod, mas são herdeiros de uma tradição centenária, em que freiras preferiam se atirar do alto dos seus conventos nas montanhas, encontrando morte certa, do que se submeter à devastação trazida pelos invasores turcos otomanos.

Símbolo

O centro da rebelião neste dezembro é a Politécnica de Atenas, onde estudantes vêm saindo às ruas com barris e carrinhos de compra para coletar e reciclar rochas e pedaços de mármore usados nos quebra-quebras da noite anterior.

A Politécnica é o símbolo da rebelião moderna.

No dia 17 de novembro de 1973, tanques da ditadura militar, que havia assumido o poder seis anos antes, esmagaram as cercas de ferro para suprimir um levante estudantil.

Não se sabe até hoje quantos morreram, mas acredita-se que pelo menos 40 pessoas perderam suas vidas no episódio.

O sacrifício da Politécnica foi tão importante que os arquitetos da nova Constituição da Grécia, criada no período posterior à ditadura, incluíram no documento o direito ao asilo, proibindo as autoridades de entrar em escolas e universidades.

É por isso que os lugares reservados ao aprendizado funcionam como estopins da atual onda de violência e isso também explica por que tantos dos tumultos estão acontecendo em cidades universitárias.

Na prática, os estudantes receberam carta branca para continuar protestando, porque seus professores declararam uma greve de três dias.

Desprezo

Embora muitos dos manifestantes de hoje ainda não tivessem nascido quando os portões da politécnica foram esmagados pelos tanques, o sacrifício dos estudantes é um componente essencial dos currículos de democracia de toda criança grega.

O desprezo pela polícia, que é latente na população, e que agora explodiu de forma tão vulcânica, tem suas raízes na ditadura, quando a polícia era vista como agente dos coronéis e traidora do povo.

A morte do adolescente Alexandros Grigoropoulos, de 15 anos, nas mãos de um experiente policial de 37 anos, precipitou uma onda nacional de violência, algo que não se via desde a ditadura.

Se ela vai levar à queda do impopular governo conservador do primeiro-ministro Costas Karamanlis, não está claro.

É prematuro ver os tumultos como uma repetição, na Grécia, do levante estudantil parisiense de 1968.

Um dos comentários mais sábios veio de Nikos Konstandaras, editor do Kathimerini, um dos mais sóbrios e respeitáveis jornais do país.

Em um editorial, Konstandaras escreveu que o sangue de Grigoropoulos vai ser "usado para amalgamar todo protesto e reclamação absurdos em uma plataforma de ódio moralista contra todos os males da nossa sociedade".

"(O sangue do adolescente) vai se tornar rapidamente uma bandeira de conveniência para qualquer pessoa que tenha algum ressentimento contra o Estado, o governo, o sistema econômico, poderes estrangeiros, capitalismo e por aí vai", diz o artigo.

"Se a Grécia já parecia difícil de governar, agora vai ficar fora de controle", afirma o editorial.

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