Conflito na Ossétia do Sul foi planejado com antecedência segundo analistas

Ante a questão sobre se o conflito russo-georgiano na Ossétia do Sul é resultado das tensões dos últimos meses ou se foi cuidadosamente planejado por uma ou outra parte, os analistas se inclinam pela segunda hipótese.

AFP |

O ataque georgiano no enclave separatista na noite de 7 para 8 de agosto parece ter surpreendido uma boa parte da comunidade internacional, que tinha o olhar voltado para a cerimônia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Na verdade, as duas partes parecem ter adotado há algum tempo o provérbio latino: "Si vis pacem, para bellum" (Se quiser a paz, prepara a guerra).

Para o presidente georgiano Mikheil Saakashvili, a Rússia o impeliu a lançar esta operação através de provocações.

As forças georgianas "abriram fogo sobre Tsjinvali" no dia 8 de agosto passado, "depois dos assassinatos, durante vários dias, de membros de nossas forças de paz e da população civil", afirmou Saakashvili sexta-feira ao jornal Kommersant.

A intervenção russa que se seguiu foi premeditada, acusou.

Houve "preparação minuciosa da guerra", e "o momento foi brilhantemente escolhido: durante os Jogos Olímpicos", afirmou, destacando que os russos haviam "construído toda a infra-estrutura para a intervenção, tanto na Abkházia como na Ossétia do Sul".

Pavel Felgenhauer, analista independente, escreveu num artigo na revista Novaia Gazeta que considera como prova disso o fato de que a frota russa do mar Negro, assim como as unidades terrestres e de pára-quedistas estarem todas "prontas" para intervir. O aparelho de propaganda do Estado também havia sido posto em prática há tempos, persuadindo a população russa de que a agressão georgiana era "inevitável" e que Estados Unidos e Ocidente eram os que manejavam a situação.

Um "aventureiro" contra um Império

Fedor Lukianov, redator-chefe da revista "Rússia na política global", defende a tese contrária. "Não acredito que sejam os russos que prepararam esta guerra. Parece que foi algo totalmente inesperado para nós. foram necessárias 14 horas para avaliarmos a situação e dar uma resposta", disse à AFP.

"Ao se decidir, Saakashvili não foi louco, mas um aventureiro. Faltaram a ele cerca de 10 horas. Se tivesse ultrapassado Tsjinvali, aproximando-se do túnel de Roki (na fronteira russo-georgiana) e o tivesse bloqueado com uma explosão, teria impedido a operação terrestre russa. Teria tomado o território sob seu controle tornando impossível responder", acrescentou Lukianov.

O importante apoio dos Estados Unidos à Geórgia, estimulou Mikhail Saakashvili em seus propósitos, prosseguiu.

Serguei Markov, analista político e deputado da Duma próximo ao Kremlin, afirma que a "Rússia queria evitar a guerra".

Os projetos georgianos, não poderiam ter escapado a Washington: "Não foi uma surpresa para os americanos. Saakashvili não é um presidente independente, suas tropas são quase americanas, asssim como seu armamento, seus instrutores, etc".

"O objetivo dos Estados Unidos era empurrar a Rússia a uma resposta militar. O escandaloso não é a atuação da Rússia, mas a dos Estados Unidos", concluiu.

"Grave erro"

Em um artigo publicado na edição de terça-feira do Washington Post, o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchev considerou que os Estados Unidos cometeram um "grave erro" ao deixar a Geórgia acreditar que poderia conduzir sem riscos uma operação militar na Ossétia do Sul.

"Ao declarar que o Cáucaso, uma região localizada a milhares de quilômetros do continente americano, pertence a sua esfera de interesse, os Estados Unidos cometeram um grave erro", escreveu o Prêmio Nobel da Paz de 1990 nessa tribuna.

"Claro que a paz no Cáucaso é do interesse de todos. Porém, é apenas uma questão de bom senso admitir que a Rússia tem raízes nesta região, devido a uma geografia e séculos de história comuns", acrescentou Gorbatchev.

"A Rússia não busca a expansão territorial, mas tem interesses legítimos nesta região", prosseguiu.

Para o ex-presidente russo, os ocidentais "expressaram posições desequilibradas" durante as discussões no Conselho de Segurança da ONU sobre a Geórgia. "O resultado é que o Conselho não pôde atuar com eficiência logo no início do conflito", destacou.

Ele também acusou o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, de ter tomado uma decisão "imprudente" ao lançar, quinta-feira, uma operação militar na Ossétia do Sul para retomar o controle desta região separatista.

"Os dirigentes georgianos só fizeram isso porque tiveram o sentimento de serem apoiados e incentivados por uma força bem maior", afirmou, lembrando que as forças armadas georgianas "foram treinadas por centenas de instrutores americanos".

"Esse apoio, acompanhado pela promessa de uma adesão à Otan, fez os dirigentes georgianos acreditarem que poderiam conduzir, sem maiores conseqüências, uma guerra relâmpago na Ossétia do Sul", acusou Gorbatchev.

Na opinião do ex-presidente, "a Rússia era obrigada a responder". "Acusar Moscou de agressão contra uma Geórgia 'fraca e sem defesa' não é apenas cínico, é desumano", finalizou.

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