Conflito deixa centenas de corpos em ruas de cidade da Nigéria

MAIDUGURI - As autoridades nigerianas recolheram, nesta sexta-feira, centenas de corpos das ruas da cidade de Maiduguri, no norte do país, após dias de confrontos com membros de uma seita islâmica radical.

Reuters |


Funcionários do governo do Estado e do Ministério da Saúde empilhavam em caminhões os corpos, alguns deles inchados depois de permanecerem nas ruas por dias, enquanto policiais e soldados faziam patrulha.

"Até ontem tínhamos mais de 200 corpos", disse à Reuters Aliyu Maikano, funcionário da Cruz Vermelha Nigeriana para o controle de desastres na região nordeste. Ele acrescentou que os corpos ainda estavam sendo recolhidos.

O número de Maiduguri eleva para ao menos 300 o total de mortos na violência deflagrada em vários Estados do norte da Nigéria desde domingo.

As autoridades esperam que a morte do líder da seita, Mohammed Yusuf coloque um fim aos seis dias de revolta promovidos por seus seguidores.

Morte do líder

Yusuf, de 39 anos, foi morto a tiros numa operação policial na noite de quinta-feira. Autoridades afirmaram que ele morreu em um tiroteio durante uma tentativa de fuga, mas grupos de direitos humanos condenaram o que parece ter sido uma execução.

Centenas de pessoas reuniram-se para ver o corpo de Yusuf, estendido no chão na frente da sede de polícia de Maiduguri ao lado dos corpos de outros supostos membros do Boko Haram.

"Quero ver o corpo de Mohammed Yusuf para conhecer o homem que nos causou tanta dor e dificuldade. Que a alma dele apodreça no inferno", disse Nasir Abba, morador de Maiduguri, em cujo bairro aconteceu um dos confrontos mais pesados.

Eric Guttschuss, pesquisador do Human Rights Watch para a Nigéria, descreveu o assassinato de Yusuf como "exemplo chocante do desacato insolente da polícia nigeriana ao Estado de direito".

A Anistia Internacional pediu por uma investigação e disse que os responsáveis pelas mortes ilegais deviam ser levados à Justiça.

Um repórter da Reuters havia contado mais cedo 23 corpos cobertos por sangue no que pareciam ser feridas por balas, entre eles o de Alhaji Buji Fai, antigo comissário estatal para assuntos religiosos que se acreditava ser simpatizante de Boko Haram.

"Alhaji Buji Fai foi morto junto com outros fugitivos do Boko Haram numa troca de tiros nesta manhã na estrada Benishek-Maiduguri", disse Isa Azare, porta-voz do comando da polícia em Maiduguri.

Feridos e desabrigados

Maikano, funcionário da Cruz Vermelha, disse que 182 pessoas estavam sendo tratadas em dois hospitais de Maiduguri por ferimentos a bala, golpes de facão, ferimentos por faca e espancamento.

"Esses são civis, não identificamos nenhum membro de seita muçulmana entre os feridos", disse ele, acrescentando que os médicos e enfermeiros militares estavam ajudando os médicos civis.

Ele afirmou que cerca de 3.500 desabrigados estavam em barracas, mas, encorajados pela morte de Yusuf e de outros membros importantes da seita, muitos começaram a voltar para casa.

Os confrontos no norte da Nigéria começaram no último domingo em Bauchi, quando uma delegacia da polícia foi atacada pela guerrilha Boko Haram, o que desencadeou um tiroteio que deixou 41 mortos e que derivou em combates entre as forças governamentais e os insurgentes.

As autoridades não forneceram o número exato de mortos depois de seis dias de confrontos, mas a imprensa local informou na quinta-feira que só no estado de Borno mais de 300 pessoas morreram, às quais é preciso somar outras 50 em Bauchi e 40 em Yobe.

Grupo "Boko Haram"

O grupo Boko Haram ("Educação é proibida", em tradução livre) era liderado por Mohammed Yusuf e luta contra o sistema de educação ocidental. O grupo acredita que o governo nigeriano foi corrompido pelas ideias do Ocidente. Eles desejam impor a lei islâmica, a Sharia, em todo o país.

A população local também se refere ao Boko Haram como "Taleban", embora não existam laços conhecidos entre os nigerianos e os milicianos do Afeganistão.

A população nigeriana, de cerca de 150 milhões de pessoas, é dividida quase que igualmente entre muçulmanos e cristãos e os dois grupos convivem de forma pacífica, apesar dos episódios ocasionais de violência.

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