Conflito agrário opõe governo e oposição e gera crise interna no peronismo

A tensão política crescia a olhos vistos nesta terça-feira na Argentina, num momento em que a disputa agrária de quase 100 dias pela milionária cifra da soja nacional se transforma em uma luta violenta entre o governo e seus defensores e a oposição, que lançou o desafio de um dia nacional de protestos.

AFP |

A presidente peronista Cristina Kirchner rompeu finalmente o silêncio das últimas horas, discursando em cadeia nacional de rádio e televisão nesta terça. Dirigindo-se às forças kirchneristas, ela confirmou sua decisão de convocar seus partidários para uma demonstração de força na Praça de Maio amanhã, quarta-feira.

Do outro lado da contenda, os grupos de agricultores convocaram, também para quarta-feira, uma jornada nacional de protestos contra a política agropecuária do governo, que incluirá setores fabris e operários de cidades e povoados das províncias envolvidas no conflito.

"Exortamos os ruralistas a acabar com a greve", declarou por sua vez o ministro do Interior, Florencio Randazzo, que também discursou na televisão.

Os agricultores bloquearam centenas de estradas em protesto, prejudicando a distribuição e comprometendo o abastecimento de alimentos, medicamentos e matérias-primas industriais.

Os grevistas exigem a derrubada dos impostos móveis sobre as exportações de soja, cuja colheita foi avaliada este ano em 24 bilhões de dólares, dos quais o governo pretende arrecadar 11 bilhões.

O governo tentará uma nova demonstração de força na quarta-feira em frente à Casa Rosada, sede da presidência, em resposta à jornada nacional de protestos e aos panelaços organizados por milhares de pessoas da classe média urbana que apóiam os grevistas e repudiam a gestão de Cristina Kirchner.

A disputa tomou nesta terça-feira as dimensões de uma grave crise interna no seio do peronismo oficial, após o anúncio do retorno à vida política do ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), maior inimigo de Cristina e de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007).

"Duhalde está trabalhando pela formação de uma corrente interna dentro do Justicialismo (peronismo)", explicou Luis Verdi, porta-voz do ex-chefe de Estado, que havia se retirado da vida pública, mas que ainda possui grande influência sobre vários dirigentes intermediários do maior partido político argentino.

Mas a frente governista já havia sentido o tiro no próprio pé antes, quando o vice-presidente Julio Cobos, aliado de Kirchner e dissidente da social-democrata União Cívica Radical (UCR), pediu uma intervenção do Congresso argentino para a elaboração de uma política agropecuária de consenso, que encerre o longo conflito.

Além disso, outros líderes peronistas das poderosas províncias de Córdoba (centro), Santa Fé (centro-leste) e Entre Ríos (centro-leste), todas elas ricas produtoras agrícolas, declararam que não participarão do ato de apoio à presidente.

Entretanto, do coração do Justicialismo surgiu uma importante adesão a Kirchner: a central operária oficialista CGT, majoritária, com 10 milhões de afiliados, declarou que paralisará suas atividades a partir do meio-dia de quarta-feira.

Por causa disso, o prefeito de Buenos Aires e chefe da agremiação direitista Proposta Republicana, Mauricio Macri, fez um apelo ao governo federal para que "suspenda o ato na Praça de Maio".

"Senhora presidente, senhor Néstor Kirchner, peço que suspendam o ato. Não faria sentido depois da rejeição massiva e espontânea da noite (o panelaço)", disse Macri em uma entrevista coletiva.

O confronto começou quando o governo impôs limites aos lucros extraordinários sobre as exportações de soja e de outros produtos alimentícios como o girassol, o trigo e o milho, medida considerada confiscatória pelos agricultores.

A Argentina é o maior exportador mundial de óleos e farinhas de soja, o quarto maior de trigo e o segundo maior de milho, segundo dados da secretaria de Agricultura dos Estados Unidos, com o aval da Organização Mundial do Comércio.

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