Conferência sobre água da ONU pede ação global urgente em nível local

Nairóbi, 22 mar (EFE).- A crise de água no mundo, caracterizada pela alta contaminação e pelas previsões de escassez, requer uma ação urgente global, mas com ênfase local e investimentos que trarão grandes benefícios, garantindo a saúde dos ecossistemas e da humanidade.

EFE |

Essa é a ideia geral resultante de uma conferência de especialistas da ONU e cientistas realizada durante três dias e encerrada hoje em Nairóbi por ocasião do Dia Mundial da Água.

A crise de água se reflete no fato de que 2 milhões de toneladas de resíduos de águas e esgoto e resíduos industriais e agrícolas são lançados a cada dia nas águas de rios e oceanos do mundo, de acordo com um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Segundo os dados do PNUMA, 1,8 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem todo ano por doenças causadas pela água, o que equivale à média de uma criança a cada 20 segundos.

Cerca de 2,6 bilhões de pessoas, dentre elas 280 milhões de crianças com menos de cinco anos, não dispõem de condições sanitárias adequadas. Além disso, 1,5 milhão de crianças morrem de diarreia por causa da água contaminada.

Outros dados alarmantes divulgados no relatório da PNUMA, intitulado "Água doente", assinalam que nas últimas três décadas do século XX o número de espécies que vivem em águas de rios, lagos e subterrâneas diminuiu 50%, dois terços a mais que nos meios terrestre e marinho.

A indústria no mundo é responsável pelo lançamento a cada ano entre 300 e 400 milhões de toneladas de metais, solventes, substâncias tóxicas e outros resíduos na água.

Como presidente da Junta de Assessores do secretário-geral da ONU sobre Água e Saúde, o Príncipe Guilherme Alexandre dos Países Baixos pronunciou um discurso na conferência no qual ressaltou que "a água deve ser protegida localmente".

"Nossa água está nos matando" disse o herdeiro da Coroa holandesa, o mais destacado orador da conferência de hoje, referindo-se à elevada contaminação de água do planeta. Ele enfatizou a necessidade "de tratar a água que usamos antes de devolvê-la à natureza".

A tecnologia existente no mundo para tratar dos resíduos de água é bastante eficaz, mas é necessário aplicá-la de forma extensa, ressaltou o príncipe. Para ele, "a revolução da água" tomará tempo e esforços.

"A cada ano, o Dia Mundial da Água ganha mais ímpeto e estimula milhares de iniciativas locais no mundo todo, em escolas, igrejas e comunidades", acrescentou. "Sabemos que nenhum instrumento global por si só pode assegurar que nosso bem comum esteja a salvo. A água deve ser protegida localmente." Estudos divulgados pelas agências da ONU indicam que um investimento de US$ 20 milhões em tecnologias para a água, como a irrigação por gotejamento e a bomba de água movida a pedal, pode tirar da pobreza extrema 100 milhões de famílias dedicadas à agricultura.

O diretor-executivo do PNUMA, Achim Steiner, declarou que "a contaminação é ignorância e arrogância", defeitos que frequentemente levaram à humanidade a cometer grandes erros.

O responsável da ONU-Água, Adeel Zafar, manifestou que "a qualidade da água tem um impacto na vida de milhões de pessoas no mundo todo. A maior parte delas são crianças de menos de 5 anos de idade".

Entre os cientistas que participaram da conferência estava Blanca Jiménez da Universidade Nacional Autônoma do México. Ela destacou a necessidade de enfocar o problema e buscar soluções de forma local, porque o que pode ser eficaz em uma região do mundo pode não ser em outra. Dito de outra forma: "a poluição da água depende das condições de saúde locais".

A conferência iniciou na sede da PNUMA e da ONU-Habitat em Nairóbi ao som de típicos tambores africanos tocados na mesma sala por um grupo de percussionistas e com o discurso de um menino queniano que disse à plateia que "as crianças da África e de todo o mundo sofrem por falta de água".

Trevor Gitonga, de 13 anos, declarou que 97% da água do mundo é salgada, 2% gelada e apenas 1% serve para o consumo. Se o consumo continuar crescendo, dois em cada três pessoas não terá água e, portanto, mais da metade da população sofrerá, acrescentou o garoto.

"A água contaminada põe nossas vidas em perigo", manifestou o jovem orador, que pediu para que se dobrem os investimentos no mundo para melhorar e preservar a qualidade de água. EFE pdp/sa

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