Condenação é maior derrota na carreira de Fujimori

Por Marco Aquino LIMA (Reuters) - O grito de sou inocente! não bastou para que o ex-presidente peruano Alberto Fujimori, de 70 anos, convencesse os juízes que na terça-feira o sentenciaram a 25 anos de prisão por violações de direitos humanos.

Reuters |

Essa é a maior derrota na polêmica e calculista vida de Fujimori, que tem no futuro político da filha Keiko a única saída possível para que volte rapidamente à liberdade. Líder nas pesquisas de intenções de voto para 2011, ela promete indultar o pai caso seja eleita.

Fujimori sempre transitou por tormentas políticas, até a queda do seu governo, em 2000, resultado de um gigantesco escândalo de corrupção ligado às ações de seu ex-homem forte e chefe de espionagem Vladimiro Montesinos.

Matemático de profissão, Fujimori surgiu na cena política peruana como um "tsunami", ao derrotar de forma surpreendentemente o premiado escritor Mario Vargas Llosa nas eleições presidenciais de 1990, sob o slogan "honradez, tecnologia e trabalho".

Cinco anos depois, em 1995, venceu nas urnas outro peruano ilustre, o ex-secretário-geral da ONU Javier Pérez de Cuellar. Em 2000, obteve um terceiro mandato em um pleito marcado por denúncias de fraude.

"Jamais naveguei em águas tranqüilas", disse Fujimori em uma entrevista no mesmo ano 2000, antes de fugir para o Japão, de onde enviou por fax a sua renúncia. O fato de ser filho de japoneses lhe garantiu abrigo judicial no país asiático.

ANOS DE GLÓRIA

Filho de um alfaiate, Fujimori, que nasceu no Dia da Independência (28 de julho), passou uma infância humilde em um bairro operário de Lima. Estudou em escola pública e se destacou, primeiro como aluno, e depois como professor universitário, cargo no qual descobriu, como disse certa vez, "quão suja é a política".

Para muitos, a verdadeira personalidade de Fujimori esteve cercada por mistérios, e muitos acreditavam que o verdadeiro detentor do poder naquele tempo foi Montesinos.

Talvez o momento mais decisivo do governo Fujimori tenha sido em 1992, quando ele anunciou o fechamento do Congresso e do Judiciário, com apoio dos militares, que colocaram tanques nas ruas. O presidente justificou o "autogolpe" alegando que precisava de mais poderes para derrotar a guerrilha esquerdista do Sendero Luminoso e para estabilizar economicamente o país.

Naquele ano, seu governo fez a "captura do século" --prendeu o fundador do Sendero, Abimael Guzmán. Até hoje, muitos peruanos dão crédito a Fujimori por ter derrotado a guerrilha.

A QUEDA

Mas a sorte do "Chino" ("chinês," apelido que deve aos traços orientais) mudou em 2000, quando adversários divulgaram um vídeo em que Montesinos aparecia entregando dinheiro a um parlamentar, que em troca deveria apoiar projetos do governo.

Milhares de outras gravações começaram a vir à tona na sequência, mostrando uma rede de corrupção que envolvia políticos, empresários, militares, juízes e donos de meios de comunicação. Montesinos está preso por até 20 anos em uma base naval.

O escândalo impediu Fujimori de completar seu terceiro mandato e somar 15 anos de poder, o que teria feito dele o governante constitucional mais longevo na história da América do Sul.

Depois de viver exilado no Japão, Fujimori voltou a surpreender o mundo em 2005, quando viajou para o Chile, de onde pretendia regressar ao Peru para retomar sua carreira política. No entanto, foi preso assim que desembarcou em Santiago, e dois anos depois foi extraditado para Lima.

Agora, foi condenado, 19 anos depois da chacinas nos chamados Barrios Altos e na Universidad La Cantuta. Mas ainda enfrentará outros julgamentos, ligados principalmente a casos de corrupção.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG