Conciliador, Capriles adota discurso menos combativo que Chávez

Neto de polonês que chegou à Venezuela ao fugir dos nazistas, governador de Miranda disputará presidência com Chávez em outubro

Marsílea Gombata, De Caracas, Venezuela* |

Quando Andres Radonski deixou a Polônia em direção à Venezuela fugindo dos nazistas, sonhava um futuro de paz para sua família. Mal sabia ele que, mais de seis décadas depois, seu neto Henrique Capriles Radonski se tornaria o principal rival do atual homem mais poderoso do país, o presidente Hugo Chávez, há 13 anos no poder.

Entrevista ao iG: Favorito da oposição da Venezuela se inspira em Lula contra Chávez

AP
Candidato presidencial Henrique Capriles ouve pergunta durante coletiva em Caracas, Venezuela (07/02)

Vitória: Capriles vence primária e será rival de Chávez na eleição presidencial

Vencedor das eleições primárias de domingo, Capriles derrotou o adversário Pablo Pérez , governador do Estado de Zulia, com cerca de 62% dos votos da oposição, com pelo menos 95% dos votos apurados. O resultado das primeiras eleições primárias do país o colocam na disputa direta com Chávez pela presidência venezuelana, na votação marcada para 7 de outubro .

O político de 39 anos é governador do Estado de Miranda (o segundo mais populoso do país) desde 2008 e foi o mais jovem vice-presidente do extinto Congresso Nacional, chegando ao cargo aos 25 anos.

De tom menos combativo que o presidente venezuelano, Capriles é visto por seus amigos e colegas de trabalho como conciliador. “Ele tem o que chamamos aqui de sangue liviano, de quem está disposto ao diálogo, interage e escuta as pessoas. É por isso que alguns dizem que ele chega a ser benevolente com o chavismo. Ele é um tipo menos radical que outros opositores que estavam na disputa, como María Corina ou Diego Arria”, disse Leandro Area, integrante da equipe de análise de política externa que auxilia o candidato em seu plano de governo.

O discurso menos agressivo e combativo não significa, no entanto, pacifismo. A rivalidade com Chávez não é de hoje, e Capriles já esteve na mira do governo antes. Na época em que era prefeito do distrito de Baruta, onde fica Caracas, ele foi preso pelas forças de segurança chavistas por quatro meses, depois de ser acusado de instigar tumultos contra a embaixada de Cuba durante a tentativa de golpe frustrada contra Chávez, em 2002. O opositor nega as acusações, e grupos internacionais de direitos humanos o rotularam como prisioneiro político.

Advogado de formação que também estudou na Europa e nos EUA, Capriles se diz fã dos ex-presidentes sul-africano Nelson Mandela e do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva , a quem tece elogios ao modelo socioeconômico e à diplomacia de sua gestão. A inspiração rendeu a implantação de uma versão do programa Fome Zero em Miranda, que assiste 2,5 mil famílias pobres com alimentos, moradia, educação e serviços de saúde ao mesmo tempo em que oferece qualificação profissional básica.

Ciente do avanço social impulsionado por Chávez e da consequente popularidade que as políticas na área renderam ao presidente, Capriles tem prometido não apenas manter as missões (carro-chefe da política social do governo atual) como também melhorá-las. “Os programas sociais não são exclusividade do governo, são do povo. Assim, não há por que serem eliminados”, disse em entrevista ao iG .

AP
Capriles celebra vitória nas primárias em Caracas, na Venezuela (12/02)
Recuperação: Após tratamento contra câncer, Chávez volta aos holofotes

Viagem: Hugo Chávez anuncia visita ao Brasil em março

Apesar de Chávez raramente mencionar Capriles pelo nome, os meios de comunicação estatais costumam atacar o governador definindo-o como um elitista de direita alinhado aos interesses dos EUA. Longe de passar dificuldades financeira, a família de Capriles é dona de uma cadeia de meios de comunicação que detém o jornal El Universal, um dos principais da Venezuela, mantém uma das maiores redes de salas de cinema do país e fundou uma fábrica de biscoitos que se tornou a subsidiária da americana Nabisco. “O candidato da contrarrevolução, seja quem for, será o candidato dos ianques. É o candidato da burguesia”, disse Chávez em discurso de 24 de janeiro.

Estilo

Enquanto Chávez é agressivo com seus adversários, Capriles vem mostrando um estilo diferente do controverso presidente: o governador de fala mansa tenta evitar confronto e se define como um meio termo em relação ao presidente que se diz socialista.

A posição parece funcionar, e o opositor vem ganhando terreno entre indecisos e inimigos do chavismo. “Se há algo do qual estou convencido é que a única coisa que se deve ter medo é o atraso e não a mudança”, disse o opositor, do partido Primero Justicia e candidato pela coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), como conselho aos eleitores historicamente chavistas.

Comumente cercado de eleitoras que pedem para tirar fotos com ele, o político fã de esportes e dono de um porte atlético tem conquistado o eleitorado jovem e de classe média cansado de Chávez ao prometer resolver problemas como violência, desemprego e uma inflação na casa dos 27%.

“Capriles é uma pessoa com muita energia. Não pode ser definido como workaholic (viciado em trabalho) porque é mais de agir do que ficar horas e horas trabalhando em um escritório. Para a campanha, costuma estar em dois ou três Estados no mesmo dia. Em visita a alguns bairros, não fica aqueles cinco minutinhos jogando bola com os meninos na rua. Acaba ficando uma hora, uma hora e meia”, contou Alejandro Martinez Ubieda, ex-diretor de Relações Internacionais do antigo Senado e colega de Capriles, a quem auxilia na área de política externa.

Fã de telenovelas e reggaeton, o rival de Chávez gosta de se definir como progressista e é admirado também por seu estilo informal. “Dificilmente vai encontrá-lo de terno e gravata. Ele não gosta dos protocolos”, contou Martinez. “Para se ter ideia, Capriles anda de moto em Caracas. Isso não é muito comum para um governador de Estado aqui.”

* A repórter viajou a convite do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela para o Programa de Acompanhamento Internacional das Primárias

    Leia tudo sobre: eleição na Venezuelacaprileschávezvenezuela

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG