Comunidade muçulmana de Mumbai tenta se dissociar dos atentados

Os muçulmanos de Mumbai também foram atingidos pelos recentes atentados na cidade, cometidos em nome do islã, mas agora precisam se dissociar dos ataques, temerosos de que os partidos hindus explorem a situação nas ruas - e nas urnas.

AFP |

Entre 20 e 30% das 188 vítimas fatais dos atentados pertenciam à comunidade muçulmana, que representa aproximadamente 15% da população de Mumbai, mas seus líderes não escondem uma grande preocupação de que uma discriminação seja incentivada pelos seguidores radicais do hinduísmo.

Na sexta-feira, os muçulmanos de Mumbai organizarão uma marcha em memória às vítimas após a tradicional oração do dia. Personalidades conhecidas da comunidade local, por sua vez, pediram que os rituais da celebração de Aid al Adha, a festa do sacrifício, sejam limitados. Ao mesmo tempo, várias organizações islâmicas se negam a permitir que os terroristas mortos nos atentados sejam enterrados na Índia.

E, se por um lado o líder religioso muçulmano Mustaqueem A. Azmi aprova as declarações das organizações islâmicas, por outro lembra que "cada vez que há um atentado, já há cinco ou seis anos, os muçulmanos indianos repetem que são inocentes, mas não conseguem se defender das acusações".

Azmi, que ocupa o cargo de secretário da Sociedade dos Ulemás do Estado de Maharashtra (cuja capital é Mumbai), lamenta "a fraqueza dos partidos que representam os interesses dosmuçulmanos", ao contrário dos movimentos hindus.

Javed Ajtar, roteirista da indústria cinematográfica indiana - mais conhecida como 'Bollywood' -, disse que "um muçulmando indiano ficou tão preocupado e comovido" pelos ataques quanto "qualquer indiano".

"Em um mundo ideal não faria falta lembrar disso", acrescentou, mas como "os terroristas agitam a bandeira do islã e dizem atuar em nome da jihad, todo muçulmano deve se distanciar daqueles que dão essa imagem diabólica do islã".

Ajtar - que é ateu declarado - também rejeita os argumentos de Azmi, e afirma não considerar que "o islã na Índia deve falar com uma só voz" ou tentar reproduzir o modelo dos partidos hindus.

"A idéia mesma de que os muçulmanos, os hindus e os cristãos devem ter seu próprio governo levaria à divisão da Índia sobre bases religiosas", alertou Ajtar.

Já Azmi acredita que os ataques de Mumbai são resultado de "uma conspiração do Mossad, o serviço secreto israelense, e do RSS (Rashtriya Swayamsevak Sangh), a extrema direita hindu)".

Entretanto, ainda não foi registrado qualquer ato de hostilidade em relação a muçulmanos na Índia, e os grupos hindus - inclusive os mais radicais, muito poderosos na região - se mostram prudentes.

Os líderes muçulmanos advertem que os atentados não devem ser usados politicamente.

"Os partidos que fazem declarações que podem gerar divisões na população sobre bases religiosas deveriam ser banidos", afirmou Mohammed Mansoor Ali Qadami, secretário-geral da poderosa coalizão All India sunni Jamiat-ul-Ulema'a, em uma clara alusão às organizações hindus.

sst/ap

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