Comissão Latino-americana quer mais ênfase no combate ao consumo de drogas

Rio de Janeiro, 30 abr (EFE).- As atuais políticas antidrogas da América Latina, que privilegiam a repressão à produção, foram insuficientes para reduzir o narcotráfico na região, o que torna necessário dar mais ênfase no combate ao consumo de drogas, admitiram hoje ex-presidentes de Brasil, Colômbia e México.

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A advertência foi feita pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México) durante o ato de instalação no Rio de Janeiro da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia.

Este grupo, integrado por 18 personalidades da região, se propõe a elaborar um documento com recomendações para os países da região, após as reuniões de hoje, no Rio de Janeiro, em setembro, na Colômbia e em janeiro de 2009, no México.

A Comissão inclui desde ex-chefes de Estado até escritores como Mario Vargas Llosa, Tomás Eloy Martínez e Paulo Coelho, ex-juízes da Corte Interamericana de Direitos Humanos e destacados jornalistas de várias nações.

"As últimas informações que temos mostram que o combate às drogas não foi muito efetivo. Os recursos para o combate cresceram, mas o consumo também cresceu", afirmou Fernando Henrique no ato de instalação do grupo.

"Existem modelos que podemos compartilhar e que mostram o êxito de políticas que não se baseiam apenas na repressão", acrescentou.

Zedillo, que não pôde vir ao Rio de Janeiro e participou do evento através de uma videoconferência, assegurou que o problema das drogas não melhorou na região, mas se agravou em alguns países.

O ex-governante mexicano, que foi um dos impulsores da Cúpula contra as Drogas que a ONU organizou em junho de 1998, admitiu que foi "inadequado" o enfoque adotado quando se privilegiaram os acordos internacionais para combater a produção de drogas.

"Chegou o momento de fazer uma revisão profunda das atuais políticas diante da falta de resultados", disse.

"O controle das drogas continua sendo necessário, mas os esforços devem ser concentrados no consumo, que é o principal componente do problema", disse Gaviria, cujo Governo teve que combater o terrorismo do Cartel de Medellín e terminou oferecendo benefícios aos narcotraficantes para submetê-los à justiça.

"O problema das drogas não vai diminuir de maneira significativa se não houver uma redução grande do consumo nos Estados Unidos e na Europa. É preciso reduzir o consumo nos grandes mercados", afirmou à Agência Efe o ex-chefe de Estado colombiano.

"Também é certo que nos países latino-americanos o consumo é um problema emergente e que está adquirindo uma grande dimensão", acrescentou.

Os três ex-líderes concordaram que os números mostram o aumento do consumo não só nos grandes mercados, mas também na região, e que as drogas estão cada vez mais acessíveis, mais puras e com preços caindo.

Concordaram também que os países da região devem manter suas políticas de repressão, mas também precisam adotar políticas alternativas para tentar reduzir o consumo, incluir à sociedade civil nestes esforços e recuperar a confiança da população.

Além dos três ex-governantes, a comissão é integrada, entre outros, pelo ex-vice-presidente da Nicarágua Sergio Ramírez, o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus e a juíza Patricia Llerena, titular da Câmara do Tribunal Oral Criminal de Buenos Aires.

Também fazem parte do grupo o ex-ministro-chefe do gabinete militar do Brasil, general Alberto Cardoso, o ex-chanceler peruano e vice-presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos Diego García Sayán e a ex-embaixadora costarriquenha e ex-juíza da Corte Interamericana de Direitos Humanos Sonia Picada Sotela.

A comissão ainda é integrada por Alejandro Junco, diretor do diário mexicano "Reforma", a jornalista Ana María Romero de Campero, primeira Defensora do Povo da Bolívia, o escritor mexicano Enrique Krauze e Enrique Santos Calderón, diretor do jornal colombiano "El Tiempo".

Segundo Fernando Henrique, após as reuniões que a comissão realizará no Brasil, na Colômbia e no México, os membros do grupo também poderão se encontrar nos Estados Unidos, no início do próximo ano, para realizar um "debate de pontos de vista" aparentemente contrários. EFE cm/rb/plc

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