Comissão convocará Tony Blair a depor sobre a Guerra do Iraque

Pedro Alonso. Londres, 30 jul (EFE).- O ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair, que levou o Reino Unido à Guerra do Iraque, será chamado a depor na investigação sobre o envolvimento deste país no conflito iniciada hoje, seis anos depois da invasão.

EFE |

Em entrevista coletiva realizada em Londres, o presidente da comissão independente de investigação, John Chilcot, ex-subsecretário permanente do Ministério para a Irlanda do Norte, disse que Blair e "outras figuras importantes envolvidas na decisão (de ir à guerra)" serão testemunhas na investigação.

Embora já tenham sido realizadas quatro investigações sobre diferentes aspectos da disputa, os críticos ainda sustentam que restam perguntas a responder.

A nova investigação, que cobrirá o período entre meados de 2001 e julho de 2009, examinará a preparação da invasão, a informação de inteligência usada para justificativa, o próprio conflito e o pós-guerra até a atualidade.

A investigação vinha precedida de grande polêmica desde que o atual primeiro-ministro e sucessor de Blair, o trabalhista Gordon Brown, anunciou a iniciativa em junho, diante do Parlamento.

A princípio, Brown afirmou que a investigação aconteceria a portas fechadas, para não comprometer a segurança nacional, mas depois aceitou que fosse parcialmente pública, após a pressão da oposição, dos militares e das famílias dos soldados mortos.

O presidente da comissão disse hoje que o processo busca ser "tão aberto quanto for possível", apesar de ter precisado que algumas audiências acontecerão em privado, por razões de segurança nacional e para permitir "mais franqueza".

Chilcot também antecipou a "possibilidade de sessões televisionadas e retransmitidas ao vivo pela internet".

Além disso, o ex-subsecretário ressaltou que a indagação não busca processar ninguém, mas a comissão "não se recusará a fazer críticas".

Os resultados da investigação só serão divulgados depois das eleições gerais, previstas para junho do próximo ano, no máximo, algo que provocou as críticas da oposição.

Chilcot argumentou que a tarefa pendente é "enorme" e a investigação só deve acabar no final de 2010, como muito cedo.

Nick Clegg, líder do Partido Liberal-Democrata - único que se opôs à guerra -, disse que "o Governo não deve interferir para manter Blair e Brown fora do foco de atenção pelo bem da conveniência política nas vésperas das eleições".

"Tony Blair ordenou essa guerra desastrosa e Gordon Brown (então ministro da Economia) assinou os cheques. Se eles não comparecerem em público, esta investigação será vista como um encobrimento", advertiu Clegg.

A investigação foi lançada depois que o Reino Unido completou este mês a retirada oficial de suas tropas no Iraque, onde 179 soldados britânicos morreram desde que a coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiu o país, em março de 2003.

Os poucos soldados do Reino Unido (entre 100 e 150) que estavam no Iraque saíram temporariamente para o Kuwait, à espera que o Parlamento iraquiano ratifique um novo acordo - o atual expira amanhã - que permita sua continuidade para treinar as Forças Armadas iraquianas.

Tony Blair mobilizou até 46 mil militares no Golfo Pérsico para apoiar a ofensiva, apesar das reservas de seu próprio partido e dos grandes protestos da população britânica contra uma guerra que não teve o respaldo da ONU.

Além disso, Blair foi o principal aliado do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, no ataque ao Iraque, realizado com o argumento de que Saddam Hussein mantinha ligações com a rede terrorista Al Qaeda - acusação sobre a qual nunca apareceram provas - e possuía armas de destruição em massa - arsenal que nunca foi comprovado.

Frente à opinião de Gordon Brown de que "o Iraque atual é uma história de sucesso", Chris Nineham, um dos fundadores da Coalizão Stop the War, que em 2003 levou às ruas milhões de britânicos para protestar contra a disputa, considera que "toda a operação foi um desastre total" "Em vez de aprender as lições da catástrofe do Iraque, o Governo britânico está agora intensificando outra guerra (a do Afeganistão) que não pode ganhar e é tão destrutiva quanto a do Iraque", disse Nineham, em declarações à Agência Efe. EFE pa/an

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