Começa referendo de alto risco na Bolívia

A região mais rica da Bolívia lançava neste domingo um desafio ao presidente Evo Morales ao organizar um referendo de alto risco sobre autonomia, perturbado por enfrentamentos já na abertura da votação.

AFP |

Na periferia de Santa Cruz, a capital regional, comunidades indígenas favoráveis a Morales trocaram agressões com partidários da autonomia, ferindo três pessoas, segundo um fotógrafo da AFP.

No bairro de "Plan 3000", urnas foram queimadas por manifestantes que tentaram invadir um colégio onde acontecia a votação, antes de serem repelidos por moradores, na ausência das forças da ordem, segundo a mesma fonte.

Quase um milhão de eleitores são convocados às urnas na província oriental de Santa Cruz, que reivindica o direito de administrar seus próprios recursos e criar sua força de polícia.

A região rebelde concentra a maior parte dos campos de gás, principal fonte de riqueza deste país de nove milhões de habitantes, o mais pobre da América do Sul.

Primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales, apoiado pelos camponeses pobres dos Andes, condenou o referendo, que considerou "ilegal" e "separatista".

Seus partidários pretendem perturbar o plebiscito. O líder nacional indígena Fidel Surco advertiu que Santa Cruz "será responsável por um banho de sangue".

Barreiras nas estradas foram edificadas ao amanhecer para impedir a chegada das urnas a San Julian e Yapacani, feudos do partido socialista presidencial, cerca de 100 km ao norte de Santa Cruz, onde a situação está muito tensa.

Funcionários eleitorais foram recebidos a socos e urnas foram destruídas em San Julian, segundo imagens divulgadas pela televisão local.

Esta crise aumenta a divisão entre a comunidade indígena das montanhas do Oeste e a população das planícies agrícolas do Leste, em maioria de origem européia.

Várias centenas de policiais nacionais foram enviados a Santa Cruz, onde cerca de 1.000 agentes municipais desarmados foram encarregados de garantir a segurança nos centros de votação, abertos das 08H00 às 16H00 locais (09H00 às 17H00 de Brasília). Os resultados são aguardados para cerca de duas horas depois do fechamento dos colégios eleitorais.

O poder central de La Paz se recusa a conceder qualquer valor jurídico ao referendo, cujo resultado já parece definido: segundo as pesquisas, mais de 70% da população vai votar em favor da autonomia da região de Santa Cruz.

Declarado inconstitucional pelo Tribunal Nacional Eleitoral, o referendo foi validado pela Corte eleitoral regional de Santa Cruz.

Feudo da oposição liberal, a região dominada pelos latifundiários contesta a nova Constituição defendida por Morales, que prevê a redistribuição das terras e dos recursos do gás.

O governador de Santa Cruz, Ruben Costas, antecipou sábado a "instauração de uma nova Bolívia", e pediu aos habitantes da província que "não cedam à provocação".

O resultado do referendo é importante para o governo de La Paz, ainda mais porque três outras províncias ricas poderiam seguir o exemplo de Santa Cruz.

O Exército boliviano evocou uma "grave ameaça à integridade do território". O voto deste domingo "não pode nem deve ser aplicado", afirmou o general Mario Ayala Ferrufino, em nome do Conselho supremo da Defesa nacional.

Os militares já estão vigiando na região de Santa Cruz campos de petróleo cuja nacionalização foi decretada esta semana por Evo Morales.

Aliado do presidente venezuelano Hugo Chávez, Morales, eleito em dezembro de 2005, denuncia uma "conspiração" das elites para derrubá-lo.

Chávez e o presidente do Equador, Rafael Correa, expressaram seu apoio a Morales. Para o dirigente venezuelano, o povo boliviano está sendo "atacado e ameaçado pelo império (americano)".

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