Começa julgamento dos Khmers Vermelhos no Camboja

O ex-chefe dos torturadores do regime dos Khmers Vermelhos compareceu nesta terça-feira diante de um tribunal cambojano com participação internacional, no primeiro julgamento de um responsável pelas atrocidades cometidas há 30 anos em nome de uma revolução comunista.

AFP |

Kaing Guek Eav, 66 anos, mais conhecido como "Duch", participou de uma audiência preliminar desta corte especial, patrocinada pela ONU, acusado de ter dirigido com zelo o principal centro de detenção e de tortura dos Khmers Vermelhos em Phnom Penh.

Cerca de dois milhões de pessoas, ou seja, 25% da população cambojana, morreram durante o regime de Pol Pot, que aterrorizou o país de 1975 e 1979.

Os Khmers Vermelhos, comunistas radicais apoiados por Pequim, haviam sido derrubados do poder pelas forças de Hanoi depois da derrota americana no Vietnã vizinho.

"Esta primeira audiência representa a realização de esforços significativos em prol do estabelecimento de um tribunal honesto e independente encarregado de julgar os dirigentes" dos Khmers Vermelhos, declarou o juiz cambojano Nil Noon, que presidiu a sessão.

"Duch" comandava a prisão de Tuol Sleng (S-21), um centro de detenção instalado em um antigo colégio onde mais de 15.000 pessoas foram torturadas e mortas.

"Duch" é acusado de crimes de guerra, crimes contra a humanidade, torturas e assassinatos.

De acordo com seu advogado, o francês François Roux, ele pretende utilizar as audiências para pedir perdão às suas vítimas e a todos os cambojanos.

"Duch quer que a porta fique aberta, para que possa ser perdoado. Ele tentará explicar algumas coisas, mas será possível explicar o que foi contrário ao próprio conceito de humanidade?", perguntou o advogado.

O reú, um ex-professor de matemática convertido ao cristianismo nos anos 90, chegou ao tribunal a bordo de um Land Cruiser blindado.

Vestindo uma camisa azul, ele se sentou, impassível, no banco dos reús, escondido atrás de um imenso vidro a prova de balas, com o público à sua frente.

"Rezei para que este dia chegasse o mais rápido possível", declarou Vann Nath, um dos raros sobreviventes.

Detido em 1999 pelas autoridades cambojanas, "Duch" foi o primeiro dirigente Khmer transferido para o tribunal especial de Phnom Penh, em 2007. Como a Corte descartou a pena de morte, ele pode ser condenado à prisão perpétua.

Outros quatro dirigentes dos Khmers, com idades de 76 a 83 anos, serão julgados posteriormente.

O tribunal foi inaugurado em 2006, após uma década de árduas negociações entre a ONU e o governo cambojano de Hun Sen.

A audiência, que continuará na quarta-feira, tem como objetivo definir procedimentos. De acordo com fontes judiciais, os debates de fundo não vão começar antes da segunda metade de março ou do início de abril.

A China não quis comentar o início do processo, que qualificou de "assunto interno do Camboja". No entanto, uma porta-voz lembrou que "a administração do Kampuchea democrático (o regime Khmer) tinha uma cadeira nas Nações Unidas e mantinha relações diplomáticas com países de todo o mundo".

Depois de sua expulsão de Phnom Penh, os Khmers Vermelhos voltaram à insurgência, com o apoio da China e o assentimento dos Estados Unidos e de seus aliados, sobretudo da Tailândia. O movimento desmoronou em meados dos anos 90.

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