Combates na RDC agravam situação humanitária no leste do país

Gemma Parellada. Goma (R.D.

EFE |

Congo), 8 nov (EFE) - Os contínuos combates entre os rebeldes liderados pelo general Laurent Nkunda, as tropas do Exército e as milícias que respondem ao Governo da República Democrática do Congo (RDC) geraram caos no leste do país.

Dos cerca de seis milhões de habitantes da província de Kivu Norte, calcula-se que 1,2 milhão sejam de deslocados que tiveram que deixar suas casas em uma situação de desespero, agravada nas últimas semanas pelos choques entre os rebeldes do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP) e os soldados governamentais.

Os confrontos paralisaram praticamente todas as entregas de alimentos, remédios e outros elementos essenciais para a sobrevivência das povoações.

Alan Doss, chefe da Missão das Nações Unidas na RDC (Monuc), fez hoje um apelo para que as facções desmilitarizem a área de Rutshuru, 90 quilômetros ao norte de Goma, a capital provincial, para tornar possível a abertura de "um corredor de assistência humanitária" para os deslocados.

Nos arredores de Rutshuru está a pequena aldeia de Kiwanja, onde esta semana foram encontrados os corpos de dezenas de civis enterrados em 11 valas comuns.

Em entrevista coletiva em Goma, Doss lamentou os massacres em Kiwanja, os quais qualificou de "crimes de guerra que não podem ser tolerados" e dos quais responsabilizou o CNDP e as milícias Mai-Mai, aliadas ao Exército congolês.

"Nós condenamos (esses atos), (...) e lembramos aos grupos envolvidos que a lei internacional é muito clara neste sentido: são crimes de guerra que não podemos tolerar", disse Doss, que lidera a Monuc como representante especial do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

As versões sobre o número de mortos em Kiwanja divergem. A Monuc, que enviou uma comissão investigadora ao local, disse que os corpos recuperados já chegam a 26, mas não descarta a possibilidade de que haja outras valas comuns na área.

Versões não confirmadas oficialmente falam que o número de mortos pode chegar a 180.

"Várias testemunhas descreveram incidentes que conduziram à morte de civis na terça-feira passada", quando os Mai-Mai tentaram capturar a aldeia, que está em poder dos soldados do CNDP, disse Doss, que especificou que "fontes confiáveis falam, além disso, de graves violações aos direitos humanos na localidade".

Os Mai-Mai são grupos milicianos de comunidades tribais formadas para defender seus territórios dos ataques e invasões de outros grupos armados.

Suas origens remontam à guerra no leste da RDC que durou de 1998 a 2002, quando foram recrutados pelo Governo de Kinshasa para combater os banyamulenges, grupo da etnia tutsi que se envolveu nesses confrontos através de Ruanda, um dos seis países que intervieram no conflito.

Nkunda, ele mesmo um banyamulenge, lidera cerca de quatro mil soldados, em sua maioria membros dessa etnia, e afirma que luta para evitar que sua comunidade seja massacrada pelas tribos rivais e pelos milicianos hutus ruandeses, responsáveis pelo genocídio de 1994 em Ruanda.

Esses milicianos se refugiaram no leste do então Zaire, quando um regime tutsi tomou o controle em Kigali, a capital de Ruanda.

Nkunda, no entanto, parece ter ampliado seus objetivos e declarou recentemente que seu objetivo é "libertar o povo congolês".

Ele exige como condição para deter a rebelião que o presidente da RDC, Joseph Kabila, fale diretamente com ele, ao que o regime de Kinshasa se nega categoricamente.

Doss confirmou que a Monuc está reforçando seu contingente em Goma, onde os militares e soldados do Exército congolês aumentaram hoje o número de patrulhas conjuntas, depois que, durante a noite, houve tiroteios esporádicos e vários incidentes de saques das comunidades.

Além disso, o funcionário da ONU confirmou que um dos militares, vestido de civil, morreu ontem, mas não forneceu mais detalhes sobre o incidente porque a investigação ainda não foi concluída.

Em relação às afirmações de rebeldes de que o Exército congolês estaria recebendo apoio militar - em soldados e equipamentos - por parte de Angola, Doss disse que a Monuc não tem conhecimento desses fatos.

"Não temos relatórios diretos e independentes para provar essa afirmação", concluiu.

A ONU se comprometeu a defender Goma, mas sua capacidade de resposta perante um eventual ataque frontal dos rebeldes foi limitada pela obrigação de zelar pela segurança dos milhares de civis que se refugiaram na cidade após abandonar suas comunidades.EFE gp/ab/db

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