Combates entre Exército e talibãs causam êxodo no Paquistão

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 15 fev (EFE).- Os conflitos abertos do Exército contra a insurgência talibã e outros grupos extremistas em várias áreas do noroeste do Paquistão causaram um êxodo em massa de 450 mil pessoas para áreas mais seguras do país.

"É uma situação muito séria. Achamos que, nas próximas semanas, o número de deslocados ficará em torno de 600 mil, porque há muita gente em movimento", disse em entrevista à Agência Efe a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) no Paquistão, Ariane Rummery.

A maioria dos deslocados - em torno de 94% - procede de Bajaur e Mohmand, áreas tribais fronteiriças com o Afeganistão, assim como do Vale de Swat (norte), zonas nas quais as forças de segurança paquistanesas estão combatendo os fundamentalistas com mais intensidade.

O Governo paquistanês, liderado pelo Partido Popular do Paquistão (PPP) e formado após as eleições de fevereiro de 2008, tinha negociado com os talibãs no início e inclusive chegou a assinar alguns acordos de paz, mas estes logo fracassaram, e por isso se ordenou que o Exército lançasse várias operações.

"Em agosto, partiu uma onda de gente de Bajaur, em dezembro, de Mohmand, e agora está havendo uma grande subida em Swat", disse Rummery, acrescentando que as inundações na Província da Fronteira Noroeste também deixaram muitas pessoas sem casa.

A porta-voz relatou que as condições das pessoas que permanecem nas zonas de conflito são "muito adversas", já que enfrentam toques de recolher, há dificuldades para transportar alimentos e outros bens e ocorre uma grande alta da inflação.

"Começamos esta semana a transportar cobertores, alimentos e outros produtos para Swat, mas não temos pessoal no local. A situação é delicada, mas vamos continuar tentando", disse.

Os que optam por abandonar sua casa encontram abrigo, principalmente, em distritos mais seguros da conflituosa Província da Fronteira Noroeste.

Nesta província, o Acnur já habilitou 12 campos como o de Jalozai, que até 2008 esteve habitado por refugiados afegãos e agora abriga 21 mil deslocados paquistaneses e registra a chegada diária de quase 500 pessoas.

"Apenas 20% dos deslocados vivem em campos. A maioria recorre a redes familiares ou aluga casas. Não sabemos quanto tempo ficarão, mas é preciso dar-lhes mais ajuda, porque seus recursos estão no limite. A comunidade humanitária sabe que não se trata de ajuda a curto prazo", disse Rummery.

A porta-voz disse que a ONU previu destinar quase US$ 100 milhões em ajuda a deslocados durante 2009, através de várias de suas agências como o próprio Acnur, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) ou o Programa Mundial de Alimentos.

"Muitos deslocados estão indo para áreas metropolitanas", como a capital, Islamabad, ou inclusive para a populosa Karachi (sul), onde o Acnur ainda não começou a registrá-los, segundo a responsável, que disse que, "em breve, se controlará mais estas pessoas".

O Paquistão, que atualmente possui 1,7 milhão de refugiados afegãos que começaram a vir há três décadas fugindo das contínuas guerras no país vizinho, viu a situação da segurança em seu território sofrer uma grave deterioração nos últimos dois anos.

Fontes de inteligência ocidental disseram à Efe que o movimento talibã e outros grupos extremistas estão criando raízes e se consolidando na Província da Fronteira Noroeste, onde se movimentam com facilidade por amplas zonas.

Isso também começa a ser percebido no sul da província do Punjab, a região mais próspera do país e, a princípio, mais segura.

Segundo relatório publicado em janeiro por um grupo de estudo geoestratégico, quase 8 mil pessoas morreram em consequência da violência no Paquistão em 2008, o ano mais violento de sua história, durante o qual houve mais de 2 mil atos de terrorismo.

Na sexta-feira, o presidente do país, Asif Ali Zardari, advertiu do perigo de "talibanização" do Paquistão, admitiu que o movimento está amplamente expandido por todo o território e lembrou a necessidade de continuar combatendo o grupo. EFE igb/an

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