Comandante colombiano renuncia após escândalo

O máximo comandante do Exército da Colômbia, general Mario Montoya, renunciou, nesta terça-feira, em meio ao escândalo envolvendo as Forças Armadas colombianas nos casos de desaparecimento e assassinato de jovens inocentes para inflar estatísticas de combate à guerrilha. A renúncia do general ocorre poucos dias depois que o governo ordenou a destituição de 27 militares acusados de envolvimento com execuções extrajudiciais.

BBC Brasil |

Mario Montoya, um dos principais executores do Plano Colômbia, convocou uma coletiva de imprensa para anunciar a decisão.

O general disse confiar que seus efetivos cumprem a lei que determina o respeito aos direitos humanos, mas não fez referência direta à crise.

"Ninguém melhor que meus soldados pode testemunhar a minha grande dedicação para alcançar para os colombianos a paz que por anos temos sonhado", afirmou.

Escândalo
O escândalo que revela a prática de execuções extrajudiciais começou a ser investigado depois que foi descoberta uma vala comum com os corpos de 19 jovens que haviam desaparecido.

Segundo familiares, os jovens foram atraídos para as regiões de conflito por ofertas de emprego atraentes e nunca mais voltaram.

Eles seriam levados para o norte do país e depois executados, com o objetivo de mostrar que o combate à guerrilha estava dando certo.

A oposição ao governo no Congresso anunciou que exigirá, ainda nesta terça-feira, a renúncia do ministro da Defesa Juan Manuel Santos.

O comandante do Exército era um dos oficiais mais próximos do presidente colombiano, Álvaro Uribe, e esteve à frente da chamada "Operação Xeque" que em julho resgatou a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e mais 14 reféns.

Com 39 anos de carreira, Mario Montoya foi instrutor da controvertida Escola das Américas, onde foram formados mais de 60 mil militares latino-americanos para combater governos e movimentos de esquerda na região, durante o período da Guerra Fria.

Violações sistemáticas
O escândalo das execuções extrajudiciais desencadeou uma série de críticas de organizações de direitos humanos à chamada política de Segurança Democrática do atual governo.

A ONU (Organização das Nações Unidas) afirma em um informe divulgado pela Comissão de Direitos Humanos que as execuções extrajudiciais na Colômbia, por parte de efetivos das Forças Armadas, "parecem ser uma prática sistemática e difundida".

O diretor da organização Human Rights Watch (HRW), José Miguel Vivanco, afirmou nesta terça-feira que na Colômbia o número de vítimas anuais supera as violações realizadas durante toda a ditadura de Augusto Pinochet no Chile.

"Em um ano na Colômbia usualmente se cometem o equivalente às violações de direitos humanos cometidas durante toda a ditadura de Pinochet", afirmou Vivanco a uma rádio chilena.

Estima-se que mais de 3 mil pessoas foram mortas durante os 17 anos do governo de Pinochet.

Vivanco afirmou que grupos paramilitares "muitas vezes atuam em coordenação" com efetivos das Forças Armadas.

"Estamos falando de massacres, execuções, atrocidades espantosas", afirmou.

O presidente Álvaro Uribe se irritou com o último informe da HRW e também da Anistia Internacional, que afirmam que houve um incremento da violação dos direitos humanos na Colômbia nos últimos anos.

Uribe chegou a chamar o representante da HRW, José Miguel Vivanco, de "defensor" e "cúmplice" das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

"Se há problemas com a Força Pública se investiga, se repara, se indeniza e se condenam os culpados (...) O senhor Vivanco não vai me ensinar direitos humanos", afirmou Uribe.

De acordo com um relatório da organização de direitos humanos Coordenação Colômbia-Europa-Estados Unidos, nos últimos 18 meses houve um incremento de casos de execuções extrajudiciais, com um registro de 535 assassinatos.

O Ministério Público investiga a pelo menos 2,3 mil servidores públicos por suposto envolvimento em casos como esses.

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