Com Unasul, América do Sul tenta aprofundar integração

Nesta sexta-feira em Brasília, os presidentes e representantes dos 12 países sul-americanos devem assinar o tratado que cria a União das Nações Sul-americanas, a Unasul. O documento vai apresentar as principais diretrizes de funcionamento na nova instituição, cuja função será tentar aprofundar a integração regional.

BBC Brasil |

Para a diplomacia brasileira, a formalização da Unasul - que já existia como um grupo dos países da região - em uma instituição internacional é um passo natural no aprofundamento das relações do subcontinente.

Segundo o Itamaraty, os objetivos da Unasul são "o fortalecimento do diálogo político entre os Estados membros e o aprofundamento da integração regional". Será criada uma Secretária-Geral e uma série de conselhos deliberativos. Os desafios da nova instituição, porém, serão grandes.

Tensão
Para esta sexta, além da cerimônia de assinatura do tratado e apresentação para a imprensa, está programada uma reunião privada entre os presidentes. Todos se sentarão à mesma mesa, e o fato de existir apreensão sobre o que pode acontecer nessa reunião é um sinal de como a integração regional não é simples.

A posição dos presidentes na mesa de reunião retangular foi definida por ordem alfabética, sendo que o Brasil e a Bolívia estão em uma das cabeceiras porque são, respectivamente, o país sede do encontro e o atual presidente rotativo do grupo.

Essa distribuição causou alívio no Itamaraty, por colocar em lados diferentes e distantes da mesa os presidentes de Equador (Rafael Correa), Venezuela (Hugo Chávez) e Colômbia (Álvaro Uribe). A tensão entre os três países voltou a aumentar na semana passada com a acusação de que tropas colombianas invadiram território venezuelano e a revelação feita pelos colombianos e pela Interpol de que computadores das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) de fato mostrariam uma relação entre o grupo guerrilheiro e os governos de Correa e Chávez.

A reunião será comandada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e não tem uma agenda fixa divulgada. A expectativa da diplomacia brasileira é conseguir discutir mais detalhes sobre o futuro funcionamento da organização e ações da Unasul, além de debater a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano, uma proposta brasileira.

O ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, acaba de voltar de um giro pela região e afirma que o escopo do conselho já está definido, sendo que ele teria principalmente uma função de organização, comunicação e colaboração, mas sem uma estrutura de integração militar. Os brasileiros querem dar o ponta-pé inicial nesses processos já nesta sexta.

No entanto, a reunião poderá ser usada também para discutir os desentendimentos entre os três países vizinhos. "Não podemos especular se os presidentes vão falar sobre isso, porque a agenda realmente está bem aberta", diz uma fonte do Itamaraty, que também afirma que a intenção é que a Unasul sirva mesmo como fórum para esses tido de debate.

Burocracia
Com o ato de criação da Unasul também deve ser definido o nome de seu secretário-geral, que deveria ser o ex-presidente equatoriano Rodrigo Borja. No entanto, ele anunciou que não aceitaria o cargo nesta quinta.

Em entrevistas no Equador, Borja criticou a lentidão para criar a instituição e principalmente o que ele interpreta como a falta de poder que ela terá. "O que se vai aprovar amanhã (nesta sexta) é mais um foro do que uma instituição orgânica", disse ele.

Durante a negociação para se escrever o tratado que regerá a Unasul, o poder e a autonomia da secretaria-geral foi um dos temas mais polêmicos. O escopo dessa função só será conhecido integralmente nesta sexta, porém Borja criticou em sua entrevista as diferenças e as influências ideológicas nesse processo.

O aprofundamento das relações regionais começou há mais de oito anos, ainda no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando, a convite do brasileiro, foi realizada uma reunião entre todos os presidentes da região em Brasília.

Foi a primeira vez que se começou a colocar em prática a idéia de união no subcontinente e não da América Latina ou das Américas como um todo. Desde então, a iniciativa ganhou diferentes formas. Em 2004, a iniciativa, em parte por influência do Brasil, ganhou novo impulso com a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações, ou Casa.

A criação da Casa, a antecessora imediata da Unasul, teve como intenção concretizar a integração regional em dimensões práticas, como na melhora da infra-estrutura física e na maior relação energética.

Embora nos últimos anos a integração em alguns aspectos tenha se aprofundado, para críticos e céticos os problemas de assimetria econômica, diferentes visões políticas e interesses internacionais ainda mantêm uma integração profunda da região apenas como um objetivo distante.

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