Mianmar - Com ordens explícitas para votarem sim em uma Constituição elaborada pelo Exército, eleitores apreensivos compareceram, neste sábado, a seu primeiro exercício de democracia em quase duas décadas em Mianmar, país governado pelos militares. O principal partido da oposição democrática birmanesa, a Liga Nacional pela Democracia (LND), dirigida pela Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, denunciou fraude na eleição.

Em entrevista à revista dissidente "The Irrawaddy", o porta-voz da LND, Nyan Win, disse que agentes governamentais foram as casas dos que não votaram e os obrigaram a assinar um formulário como se tivessem depositado o voto.

Nyan Win disse que a maioria dos centros de votação fechou às 11h (1h30 de Brasília), quando o horário oficial era de 6h às 16h.

Moradores dos distritos de Yangun, Mandalay, Pegu, Sagaing e Magwe disseram à revista que viram funcionários entregar cédulas preenchidas aos que estavam na fila para votar.

Televisão faz propaganda e militares intimidam eleitores

Depois de semanas de exortações implacáveis aos 53 milhões de habitantes do país para que cumprissem seu 'dever patriótico' e aprovassem a Carta, a televisão estatal exibiu uma blitz propagandista para estimular os eleitores a irem às urnas.

'Vamos votar' e 'Venha à votação' eram frases de canções entoadas por cinco animadas atrizes no ritmo de uma batida de disco na TV MRTV, controlada pelos militares.

A mensagem foi mais explícita na capa do jornal Nova Luz de Mianmar, o principal porta-voz do regime militar que tem governado esse país pobre do Sudeste Asiático com mão de ferro nos últimos 46 anos. 'Aprovar a Constituição do Estado hoje é um dever nacional de todo o povo', assinalou o jornal.

Depois, o principal general de Mianmar, Than Shwe, fez sua primeira aparição na TV desde que o ciclone Nargis atingiu severamente o delta do Rio Irrawaddy, no sudoeste, e na antiga capital do país, Yangun.

A TV mostrou Than numa seção eleitoral com outros generais na remota Naypyidaw, a nova capital de Mianmar, situada 400 quilômetros ao norte de Yangun.

Apesar de certo desalento pela decisão dos generais de manterem a votação apenas uma semana depois da morte e destruição causada pelo ciclone, a mensagem parece ter surtido efeito.

De 20 pessoas entrevistadas perto de seções eleitorais em Hlegu, 50 quilômetros a nordeste de Yangun, somente duas admitiram ter votado contra a Carta, que consolida a posição dos militares no poder e parte de sua 'estratégia para a democracia'.

'Não pertenço a nenhum partido político, mas votei 'não'', disse um homem, sussurrando, depois de lançar um olhar nervoso a sua volta para verificar se havia o risco de ser ouvido.

A Carta dá ao Exército uma em cada quatro cadeiras no Parlamento, o controle dos Ministérios mais importantes e o direito de suspender a Constituição quando quiser. Essas condições provocaram fortes críticas dos governos do Ocidente e grupos oposicionistas.

A votação em Yangun e no delta do Irrawaddy foi adiada por duas semanas. Essas regiões foram fortemente atingidas pelo ciclone, que pode ter matado até 100 mil pessoas e deixado 1,5 milhão de desabrigados.

Num país onde a população é aterrorizada pelo governo, não causou surpresa o fato de alguns dos eleitores que compareceram às urnas terem dito que estavam simplesmente cumprindo ordens.

'Votei 'sim'. Foi o que me pediram pra fazer', disse à Reuters U Kyaing, 57 anos, do lado de fora de uma escola primária que serviu de seção eleitoral em Hlegu.

Desde que o Governo anunciou a convocação do plebiscito, em 9 de fevereiro de 2008, os corpos de segurança intimidaram ou detiveram qualquer pessoa que manifestasse sua rejeição à minuta constitucional.

A LND, a dissidência e as principais organizações das minorias étnicas tinham pedido o voto pelo "não", por entender que a nova Constituição, em vez de restabelecer a democracia, legitimará o regime militar, que governa desde 1962.

A votação aconteceu na maior parte do país, exceto em grandes áreas das regiões de Irrawaddy e Yangun, as mais atingidas pelo ciclone "Nargis", que atravessou o sul de Mianmar em 2 e 3 de maio e deixou 1,5 milhão de vítimas, onde a consulta acontecerá no dia 24.

A maioria dos eleitores parecia desconfortável e mostrava desconhecimento do processo, algo compreensível, já que a última eleição foi em 1990 e os generais ignoraram o resultado quando a oposicionista Liga Nacional pela Democracia conquistou 80 por cento das cadeiras.

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