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Com Obama, Kennedy chegou à Casa Branca

O trabalho continua, a causa perdura, a esperança ainda vive e o sonho nunca morrerá. O senador Edward Kennedy pronunciou essa frase em duas ocasiões.

BBC Brasil |

Na primeira, em 1980, quando jogava a toalha em sua malograda tentativa de concorrer às primárias de um Partido Democrata dividido, nas quais desafiou o presidente Jimmy Carter.

Na época, o senador procurava sanar as feridas de uma campanha dura, na qual contribuiu para enfraquecer ainda mais um líder americano já abalado por uma crise econômica e o conflito no Oriente Médio.

Quando voltou a entoá-las, na Convenção Nacional Democrata, de 2008, Kennedy procurava impulsionar ainda mais um Partido unido em torno da candidatura de Barack Obama, um político carismático fortalecido por uma crise econômica e pelo conflito no Oriente Médio.

O senador cedo percebeu em Barack Obama um potencial herdeiro do legado político deixado por ele e seus dois irmãos, o presidente John Kennedy e o senador Robert Kennedy.

Assim como seus dois irmãos, Obama tinha a capacidade de inspirar os jovens, era um orador talentoso e, na visão do senador, um batalhador de causas progressistas que ele defendeu por toda sua vida.

Em entrevista à BBC Brasil, James Thurber, diretor do Centro de Estudos Presidenciais e do Congresso, da American University, de Washington, disse o que fez com que o senador enxergasse no jovem político de Illinois um sucessor a altura.

''Ted Kennedy era meu vizinho, e antes de tomar a decisão (de apoiar Obama), me disse que vinha se sentido comovido pelo estilo e eloquência de Obama, mas também pelo compromisso dele com causas progressistas. Pouco depois, ele anunciou seu apoio, aqui na American University. Na época, parecia que Hillary (Clinton) ia faturar a indicação e muitos analistas acreditam que o apoio de Kennedy foi decisivo para virar o jogo", disse.

No entender do analista, ''ele decidiu passar a tocha, porque sentiu que ele lutaria por temas como educação e seguro saúde, áreas que ele sempre defendeu.''
Apoio
Kennedy decidiu interromper seu processo de recuperação do tumor cerebral que acabou por tirar sua vida, para discursar na convenção democrata que ratificou Obama, em agosto de 2008.

Na ocasião, ele fez alusões que legado político passado para ele, após o assassinato de seus dois irmãos, agora mudava de mãos.

''Em novembro, a tocha será passada para uma nova geração de americanos, Portanto, com Barack Obama, para você, para mim, nosso país estará comprometido com a causa dele.''
Nesta quarta-feira, ao fazer um pronunciamento sobre a morte do senador, Obama também fez menções à transição política no país.

''Um importante capítulo de nossa história chegou ao fim. Nosso país perdeu um grande líder, que pegou a tocha de seus irmãos partidos e se tornou o maior senador dos Estados Unidos em nossa era.''
Trajetória
Para melhor entender o entusiasmo de Kennedy pelo nome de Obama é preciso também compreender um pouco de sua trajetória.

O acaso fez com que o mais jovem dos três irmãos Kennedy, Edward, conhecido como Ted, desse continuidade ao sobrenome ilustre da família na política americana.

John Kennedy foi o líder mais jovem a chegar à Casa Branca, mas teve sua trajetória interrompida, com um assassinato que abalou os Estados Unidos.

Robert Kennedy parecia que iria seguir os passos do irmão ilustre e estava mais do que cotado para ganhar a indicação do Partido Democrata para a Presidência em 1968, mas também acabou sendo assassinado.

Ted acabou disputando e conquistando a vaga no Senado que fora deixada pelo irmão John, quando ele alcançou a Presidência. Mais tarde, na ausência dos dois mais carismáticos políticos da família, muitos pressionaram Ted Kennedy para que ele seguisse o rumo da Casa Branca.

O caminho parecia estar livre para que ele o fizesse até uma fatídica noite em julho de 1969. Após ter participado de uma festa, Kennedy saiu em seu carro, transportando com ele Mary Jo Kopechne, uma ex-ativista da campanha de seu irmão Robert.

O jovem político teria perdido o controle do veículo, e o automóvel despencou de uma ponte na ilha de Chappaquiddick, em Massachusetts.

Ele escapou ileso do acidente, mas Mary Jo morreu ao ficar presa nos destroços do veículo. Kennedy só informou às autoridades sobre o ocorrido na manhã do dia seguinte, sob alegação de que estivera demasiado traumatizado para fazê-lo na mesma noite.

Uma outra versão seria a de que ele teria preferido primeiro entrar em contato com os advogados de sua família, para que eles determinassem a melhor maneira de lidar com a tragédia. Especulou-se ainda que ele estaria estar embriagado no momento do acidente e teria um caso com a assessora de campanha.

Credibilidade
Mesmo sem ter se ferido no desastre, a credibilidade política do senador ficou seriamente abalada. E suas possíveis pretensões presidenciais foram praticamente encerradas.

Seu nome chegou a ser cogitado em outras ocasiões, como em 1972, quando ele era apontado por muitos dentro do Partido Democrata como o nome mais indicado para derrotar o presidente Richard Nixon. Ele declinou até mesmo da possibilidade de ser vice na chapa democrata.

Meses depois, Nixon colheu uma vitória esmagadora contra o candidato democrata, o senador George McGovern.

Kennedy voltou a tentar a presidência, quando suas possibilidades eram escassas, em 1980. O então presidente Jimmy Carter era candidato à reeleição e só uma catástrofe política o impediria de conquistar a indicação do partido.

A intenção real de Kennedy era provavelmente mover a agenda do partido para uma plataforma mais à esquerda. Não só ele falhou nesse intento, como teria, na visão de muitos analistas, trabalhado para que Carter chegasse à eleição geral combalido e mais propenso a ser derrotado pelo republicano Ronald Reagan, que, tal qual Obama, chegou à Casa Branca com a promessa de renovação, esperança e recuperação.

Mesmo sem ter chegado à presidência, os feitos políticos de Kennedy ultrapassam os de muitos que ocuparam a Casa Branca. Um total de 300 projetos apoiados pelo senador foi convertido em leis. E ele participou ativamente da maior parte dos projetos de leis aprovados no Senado nos últimos 50 anos.

Nos últimos meses de vida, ele se tornou um campeão do projeto de reforma de Saúde defendido por Obama. E se disse esperançoso de que a seu tão sonhado projeto para o setor finalmente se concretizaria.

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