Com morte de Kirchner, clima em Buenos Aires é de desolação

Vítima de parada cardiorrespiratória, ex-presidente argentino morre e deixa nação em luto profundo

Ana Manfrinatto, especial para o iG, de Buenos Aires |

A cidade de Buenos Aires respira um clima de desolação depois de ter recebido a notícia do falecimento do ex-presidente Néstor Kirchner na manhã desta quarta-feira, que teve uma morte súbita após uma parada cardiorespiratória na cidade de El Calafate. O silêncio impera pelas ruas da capital portenha e os semblantes expressam consternação.

O fato de esta quarta-feira ser feriado nacional devido às pesquisas feitas pelo censo fez com que a população se mobilizasse ainda mais depois da notícia. O comércio está fechado, as pessoas estão em suas casas acompanhando o noticiário pela televisão e, desde a manhã, muitos se dirigiram à Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada, sede do governo, para levar flores para o ex-presidente e demonstrar seu apoio à atual presidente e esposa de Néstor, Cristina Kirchner.

O vendedor de flores Alejandro Monteros, de 37 anos, soube da notícia às 13h e correu com as poucas rosas que tinha em sua casa para a Plaza de Mayo. “Não tenho simpatia nem apatia pelo governo de Kirchner, mas reconheço que ele fez muito pelos trabalhadores”, disse o vendedor, que esperava faturar 200 pesos (cerca de R$ 86) com pacotinhos com duas rosas, vendidos a 10 pesos (R$ 4,31) cada.

Já o pediatra Javier Meritan, de 38 anos, decidiu levar à praça a mulher e os três filhos. O motivo? Fazer com que as crianças participassem da mobilização popular. “Quando éramos crianças vivíamos uma ditadura militar, e isso era proibido”, conta. Javier afirma que não é peronista mas apóia o governo iniciado por Néstor Kirchner. “Embora ainda haja muita desigualdade na Argentina, a distribuição da riqueza melhorou depois de Kirchner e o trabalho que ele fez pelos direitos humanos foi único”.

O pediatra também destacou o fato de Kirchner ter sido eleito pelas camadas mais humildes, e disse que é hora de prestar solidariedade à Cristina.

Da mesma opinião compartilha a funcionária pública Adriana Valetti, de 53 anos. Adriana deixou sua casa e caminhou para a Casa Rosada vestindo uma camiseta com o rosto de Cristina estampado. Por trás dos óculos escuros, os olhos de Adriana estavam marejados enquanto falava do governo iniciado por Kirchner. “Ele representou a esperança e a força do povo argentino, além de ter resolvido grandes conflitos do país através da sua política e apoiando-se na população”.

Para ela, Kirchner foi o primeiro presidente que  sentiu sendo companheiro dos argentinos. “É por isso que agora eu sinto esta dor incomensurável”, disse.

Censo

A estudante Yamila Cotoras, de 19 anos, trabalhou como recenseadora nesta quarta-feira e lembrou da comoção na primeira casa que entrou logo depois de a TV ter anunciado a morte do ex-presidente. “Os membros da família estavam com os olhos marejados e mal podiam responder às perguntas”, disse. O mesmo cenário foi encontrado em outros lares, ela contou.

Já a aposentada Gentil León, de 78 anos, não ficou tão abalada com a perda. Para Gentil, Kirchner é uma figura orgulhosa e soberba, que enriqueceu seu patrimônio e não olha para os aposentados do país. “Numa terra como a Argentina em que as sementes voam e as plantas nascem sozinhas, acho um absurdo que exista gente que morre de fome e aposentados, como eu, recebam uma pensão de 1 mil pesos (R$ 431)”, disse.

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