Com Estado ausente, campos de sobreviventes de organizam no Haiti

Javier Otazu. Porto Príncipe, 31 jan (EFE).- Na tentativa de pôr um pouco de ordem nos acampamentos improvisados, os milhares de haitianos que ficaram sem lar após o terremoto do dia 12 e agora vivem nas ruas de Porto Príncipe começaram a se reunir em comitês.

EFE |

Os haitianos, acostumados a esperar pouco de um Estado extremamente pobre e quase sempre omisso, se organizaram de forma quase imediata após a tragédia, ainda que seja apenas para pedir ajuda de forma mais ordenada.

Milord Nestor, um pastor evangélico de 35 anos, é vice-presidente do comitê que administra o acampamento de Santa Teresa, antes um estádio de futebol e hoje lar de duas mil pessoas. O grupo tem nove diretores e 32 membros, e conta até com um escritório.

"Perdi meu irmão, minha casa e minha igreja. Me sinto como Jó.

Mas desde que cheguei aqui compreendi que tínhamos o dever de nos organizar", explicou à Agência Efe.

Um grupo de jovens se encarrega da segurança e da patrulha todas as noites pelo acampamento, de modo a evitar roubos e agressões; outro se preocupa em fazer com que os moradores do acampamento façam suas necessidades nos lugares indicados, o que, segundo o pastor, não é suficiente para evitar o "constante mau cheiro".

Segurança e higiene são duas tarefas assumidas imediatamente pelos diferentes comitês. Alimentação e cuidados médicos, que envolvem diretamente o trabalho de ONGs, aparecem em segundo plano.

Assim, não é casual que os comitês sejam integrados por jovens instruídos, que falem outras línguas e que possa se transformar em interlocutores com voluntários que levam água, comida e remédios ao Haiti.

O comitê de Santa Teresa conseguiu, por exemplo, que a organização Save the Children realize sessões de tratamento psicológico com todas as crianças do acampamento.

Em Martissant, um dos bairros mais movimentados de Porto Príncipe, a Intermón-Oxfam trabalha com vários projetos de fornecimento de água potável, e desde o princípio entendeu a necessidade de ter um porta-voz no campo para fazer seu trabalho.

O comitê de Martissant conseguiu a instalação de um hospital de campanha da International Medical Corps e o fornecimento de água pela Intermón-Oxfam. Agora, a prioridade é negociar a chegada de alimentos - ponto mais crítico do Haiti nos últimos dias.

Nem todos têm tanta sorte. Na praça Sant Pierre, no bairro de Petion Ville, a ajuda externa quase não existe, talvez pela região ser considerada rica para os padrões da capital. Ali, porém, surgiu também um comitê que organiza os sem teto.

O cheiro ruim está por todas as partes e entre os amontoados de tendas improvisadas ainda há espaço pelas ruas largas, por onde passa constantemente Fildor Jean-jean, sempre com um caderno na mão.

"Minha incumbência é percorrer todas as tendas e perguntar as necessidades. Depois reunimos todo o comitê, às vezes organizamos coletas e em outras enviamos delegados às instituições doadoras", conta Fildor.

O Estado haitiano, frágil já antes do terremoto, parece totalmente vencido pela escalada de eventos e é incapaz de atender as necessidades básicas de seu próprio povo.

Com frequência distribui folhetos em acampamentos escritos em crioulo (língua local), nos quais são feitas recomendações básicas sobre higiene. Para muitos, a iniciativa chega a soar sarcástica nos locais onde nem sequer há água e comida. EFE fjo/rr

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