Bill Richardson, de 61 anos, anunciado nesta quarta-feira como secretário de Comércio da próxima Administração americana, é um veterano da equipe Clinton, cuja adesão a Barack Obama colocou o peso da comunidade hispânica ao lado do primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos.

"Bill traz estatura internacional e uma profunda compreensão da economia mundial atual. Compreende que os êxitos comerciais atuais em Detroit, ou Columbus, freqüentemente, dependem de conseguir vender produtos em lugares como Santiago, ou Xangai", disse Obama, ao apresentar Richardson à imprensa.

"Chegou a hora não apenas de enfrentar nossas ameaças econômicas diretas, mas também de começar a assentar as bases para a prosperidade econômica de longo prazo", completou Obama.

"À nossa comunidade latina, obrigado por seu apoio e por sua confiança, por seus votos em nosso canditato e agora presidente eleito (...) Essa eleição mostrou nossa força e nossa unidade", disse Richardson, em espanhol, durante a entrevista.

"Aos milhões de habitantes da América Latina e do Caribe: é preciso fortalecer nossos laços e lembrar a importância de um hemisfério unido", acrescentou Bill.

"Acho que as pessoas vão presenciar um dos gabinetes mais diversos já vistos na Casa Branca", respondeu Obama aos jornalistas, ao ser questionado sobre futuras nomeações de hispânicos.

A escolha de Richardson reforça o perfil veterano e "clintoniano" do governo Obama e é um prêmio para os quase sete milhões de votos hispânicos que conseguiu nessa eleição.

Filho de mãe mexicana e pai americano, Richardson é o único governador de origem hispânica à frente de um Estado nos EUA - o Novo México (sudoeste). Nascido em 15 de novembro de 1947, o futuro secretário passou a infância no México e fala inglês tão bem quanto espanhol.

Durante 15 anos (1983-1997), Richardson foi representante do Novo México no Congresso, antes de representar os EUA nas Nações Unidas, no segundo mandato de Bill Clinton, que o nomeou secretário de Energia (1998-2001).

Richardson queria ser jogador de beisebol, mas acabou se formando em Direito na Universidade Tufts, antes de fazer mestrado em Relações Internacionais. Corpulento e de voz forte, Richardson adora fazer campanha em seu estado e, em 2002, apertou 13.392 mãos em uma feira agrícola, um recorde mundial.

"Terei de checar esse número", brincou Obama, na coletiva.

No outono (hemisfério norte) de 2007, entrou na corrida pela indicação democrata à Casa Branca mas foi derrotado. Seu apoio público a Obama, em março, durante a disputa entre o senador negro e Hillary Clinton, foi decisiva para a escolha do senador e vista como uma traição pela ex-primeira-dama e também senadora, aliás, sua futura colega de gabinete.

Como secretário do Comércio, Richardson substituirá outro político de origem hispânica: Carlos Gutiérrez, nomeado por George W. Bush em 2005. Sua prioridade máxima será enfrentar a crise do setor automotivo, cujos executivos pedem ao governo uma ajuda financeira emergencial para sair do atoleiro e evitar uma quebra.

Richardson era um dos cotados para o cargo de secretário de Estado de Obama, que acabou indo para Hillary Clinton.

"Obviamente, é uma decepção. Achamos que estava extremamente qualificado para ser secretário de Estado mas estamos orgulhosos de que seja um membro da equipe Obama", declarou à AFP Janet Murguía, presidente do National Council La Raza (NCLR), principal organização hispânica do país.

"Líderes da equipe de transição (de Obama) me disseram que veremos pelo menos dois, ou até três membros hispânicos, e que estão trabalhando duro para as diferentes posições que restam", revelou Janet.

Conhecido como o "Indiana Jones" da diplomacia americana, Bill Richardson construiu sua reputação graças a encontros cara a cara com líderes incluídos na lista de inimigos dos EUA, como Saddam Hussein, ou Fidel Castro.

Já foi criticado por sua preferência pela midiatização, em detrimento do trabalho governamental de base, mas também deixou sua marca como um parlamentar ativo e negociador.

Casado há 33 anos, Bill Richardson foi indicado várias vezes ao Prêmio Nobel da Paz justamente por suas negociações para a libertação de reféns, prisioneiros políticos e soldados americanos. De Pyongyang, por exemplo, Richardson obteve a repatriação dos restos de soldados americanos mortos na Guerra da Coréia.

Durante uma negociação com o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein conseguiu libertar dois americanos detidos no Iraque por violar a fronteira. Também liderou missões negociadoras em Cuba (1996), dialogou com a junta militar no poder em Mianmar, com o ex-dirigente militar do Haiti Raul Cedras, o qual convenceu a entregar o poder, e com a Nicarágua.

Além disso, é apontado como responsável por um acordo com rebeldes sudaneses, que mantinham três membros da Cruz Vermelha como reféns, propondo-lhes veículos todo-terreno, remédios, arroz e um trator, no lugar dos 2,5 milhões de dólares exigidos de resgate.

Em 2006, foi nomeado enviado especial encarregado de temas migratórios na Organização dos Estados Americanos (OEA), para melhorar o diálogo entre Estados Unidos e América Latina.

O presidente eleito dos EUA ainda tem nomeações pendentes em várias pastas de menor peso estratégico, como Educação e Trabalho, e cargos de segundo escalão altamente especializados, como o representante especial para negociações comerciais (USTR, sigla em inglês).

Obama já indicou dois hispânicos para cargos administrativos na Casa Branca. Cecilia Muñoz, vice-presidente do grupo La Raza, será diretora de Assuntos Intergovernamentais, e Louis Caldera, um ex-militar filho de imigrantes mexicanos, assumirá o Escritório de Assuntos Militares.

Outros cargos da (ainda) equipe de transição, que vem trabalhando com bastante discrição, estão nas mãos de latinos, como o professor da Universidade de Stanford Tino Cuéllar, encarregado do tema-chave da reforma migratória.

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