O presidente eleito de Honduras, Porfirio Lobo, toma posse na próxima quarta-feira sob a promessa de fazer um governo de conciliação nacional no país centro-americano, após a grave crise política e os conflitos que seguiram a deposição do então presidente, Manuel Zelaya, no último dia 28 de junho.

Mesmo antes de assumir oficialmente ao cargo, Lobo já deu indicações de que pretende passar uma borracha nas divisões políticas que ainda permanecem evidentes em Honduras.

No último dia 20 de janeiro, o presidente eleito assinou um acordo com o governo da República Dominicana que dá a Zelaya - que está abrigado desde 21 de setembro na embaixada brasileira em Tegucigalpa - um salvo-conduto para deixar Honduras e seguir para o país caribenho na condição de hóspede.

Lobo também é o principal defensor de uma lei de anistia que perdoe os crimes políticos dos envolvidos na crise - e que pode ser votada já nesta terça-feira pela nova legislatura do Congresso hondurenho.

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, no entanto, as atitudes tomadas por Lobo mostram uma vontade de tentar ganhar pontos com a comunidade internacional, que, em grande parte, ainda não reconhece oficialmente seu governo.

'Ganhar pontos'

Para o analista político e ex-candidato presidencial Efraín Díaz, Lobo deu "passos positivos" no sentido de promover uma conciliação. Mas, certas medidas "fundamentais" para isso, como a criação de uma Comissão da Verdade para investigar possíveis abusos, parecem ainda longe de serem tomadas.

"O principal propósito é retomar as relações com os países que romperam com Honduras, trazer investimentos", diz Díaz.

Diversos países, entre eles o Brasil, não reconhecem oficialmente a eleição do novo presidente hondurenho, sob o argumento de que o pleito, realizado em 29 de novembro, foi feito sob um governo ilegítimo.

Segundo Díaz, que faz parte do instituto Centro de Desarrollo Humano, apesar da relativa calma em Honduras nos últimos meses, a crise política não foi superada e é necessária a criação de uma Comissão da Verdade, como proposta no acordo de San José, para 'esclarecer' se houve mesmo violações durante a deposição de Zelaya e nos meses que se seguiram a ela.

Impunidade

Já a analista política Delma Mejia critica também a concessão do salvo-conduto para que Zelaya saia do país, afirmando que ele pegou "de surpresa a Promotoria e a Suprema Corte" de Honduras e deu a impressão de que Lobo está "acima das leis".

Para Mejia, há um sentimento geral entre a população de que Zelaya precisa sair do país, mas que tem que prestar contas das acusações de crimes - como o de corrupção - que pesam contra ele, sob o risco de dar a impressão de "impunidade".

Segundo ela, tanto o acordo do salvo-conduto quanto o projeto de lei de anistia são muito vagos, deixando pouco claro que delitos eles perdoariam.

"Se ele (Zelaya) for (sair do país) e não houver nenhum processo (contra ele), se houver anistia, isto vai gerar inconformidade e problemas de governabilidade para Lobo" diz Mejia, que avalia que o salvo-conduto faz parte de uma estratégia para "ganhar pontos com a comunidade internacional".

Diversos setores hondurenhos já se posicionaram contra uma possível anistia para Zelaya.

O presidente da Suprema Corte hondurenha, Jorge Rivera, também afirmou que caso Zelaya venha realmente a deixar a embaixada brasileira com o salvo-conduto, na próxima quarta-feira, ainda poderia ser processado pelas 18 acusações de delitos que pesam contra ele.

Cansaço

Enquanto isso, um clima de tranquilidade domina as ruas de Tegucigalpa às vésperas da posse do novo presidente.

Exceto pelos militares fortemente armados que guardam a embaixada brasileira - impedindo fotografias e filmagens - e pichações contra o governo de Roberto Micheletti nos muros, a cidade parece distante da turbulência de meses atrás.

Na tradicional Praça Morazán, no centro de Tegucigalpa, populares ouvidos pela BBC Brasil demonstraram um certo cansaço com a crise que assolou o país, independente de suas colorações políticas.

"Queremos que Lobo mantenha a paz no país", diz Rosendo Perez, de 45 anos e que considera que o presidente Micheletti, foi "a melhor coisa", pois "manteve a democracia" em Honduras.

Eleitora de Zelaya - de quem afirma gostar muito - a enfermeira Maria de Los Angeles Guifarro também diz querer do novo governo "paz e tranquilidade".

Para ela, o salvo-conduto dado a Zelaya é justo, já que "há muitas pessoas que cometeram crimes piores e não estão como ele, presos, como em uma cadeia".

Parte da oposição, no entanto, vê o governo de Lobo como uma continuidade da gestão de Micheletti, e uma manifestação de "despedida" para o presidente Zelaya está marcada para a quarta-feira.

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