Com a crise alimentícia, fome já atinge 2,5 milhões de nepaleses

Manesh Shrestha Katmandu, 7 ago (EFE).- Pelo menos 2,5 milhões de nepaleses, quase 10% da população do país, estão ameaçados pela fome, após um ano de encarecimento e escassez de alimentos básicos, que logo poderia afetar outras 4 milhões de pessoas.

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"Cerca de 2,5 milhões de pessoas do Nepal rural precisam de assistência alimentícia imediata. Esta gente é muito vulnerável ao aumento dos preços da comida e já mantêm níveis muito baixos de ingestão de alimento", alerta o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU.

Na mesma situação, estão 67 mil habitantes pobres das áreas urbanas do Nepal, segundo disse o PMA em um recente relatório.

Além disso, outros 3,9 milhões de nepaleses das áreas rurais e 458 mil das urbanas passarão as mesmas penúrias caso os preços dos alimentos continuem subindo.

No primeiro semestre do ano, milhões de cidadãos do Nepal tiveram que reduzir seu consumo de alimentos devido à escassez e à alta dos preços de produtos básicos como o arroz, que subiu 19%, e do óleo de cozinha, que aumentou 26%.

"Estamos acompanhando o impacto das altas de preços dos alimentos e do combustível para os 2,5 milhões de pessoas de maior risco", disse ontem à Agência Efe o representante no Nepal do PMA, Richard Ragan.

Os nepaleses mais pobres estão sofrendo uma escassez aguda de alimentos devido aos desastres naturais, à inflação, à falta de combustível e à dificuldade dos transportes em um país de complicada orografia como é o Nepal, que conta com 29 milhões de habitantes.

O PMA já publicou dois relatórios em que alerta sobre um "impacto enorme" da situação na vida dos nepaleses, que, segundo o jornal "The Himalayan Times", foram obrigados a se alimentar de raízes em alguns distritos do oeste do país.

As secas recorrentes, o granizo, os corrimentos de terras e as doenças dos cultivos tiveram também, segundo o PMA, um efeito devastador para a subsistência dos camponeses, que compõem a grande maioria da população.

No Nepal, que sofre déficit alimentício desde 1990, menos da metade dos distritos possuem excedente e estes estão concentrados, sobretudo nas áreas planas do sul, próximo à fronteira com a Índia.

Até agora, o país importava arroz, trigo e lentilhas da Índia, até que os indianos proibiram as exportações desses produtos para atenuar seus próprios problemas de inflação, o que agravou a escassez no Nepal.

A desnutrição já atinge 35% dos habitantes do Nepal e só 52% dos cidadãos da montanhosa região do oeste consumiram lentilhas - a principal fonte de proteínas - durante a última semana, segundo o PMA.

Essa situação não tem reflexos de mudança, porque apesar da escassez, o Governo não tem intenção de aumentar a ajuda alimentícia de arroz, que é subvencionado, além de os custos de transporte e fornecimento estarem em alta.

"Os custos de transporte estão aumentando e, este ano, já estamos acima do orçamento", disse recentemente Bijay Dhoj Thapa, da Corporação Alimentícia do Nepal.

No Nepal, a gasolina conta com uma forte subvenção do Estado que levou a companhia estatal responsável pela distribuição a obter perdas mensais de US$ 14 milhões, o que tornou ainda mais difícil a tarefa de conseguir combustível.

"A séria escassez de combustível afeta os custos de transporte, o que, de acordo com os comerciantes, é um dos fatores mais importantes para determinar o preço dos alimentos", declarou o PMA.

Embora a taxa de rendimento agrícola (2,8% anual) tenha crescido mais que a população entre 2001 e 2006, o Nepal ainda sofre com falta de irrigações, adubos, uma maior variedade de sementes e uma melhor repartição da terra.

À deficiente estrutura agrícola é preciso acrescentar a presente estagnação do país, com um crescimento econômico baixo e, sobretudo, uma transição política ainda aberta após o conflito armado entre o Estado com a guerrilha maoísta.

"A alta no preço dos alimentos representa uma grave ameaça para o processo de paz caso os envolvidos não levem a sério o assunto", concluiu o PMA.

Entretanto, muitos não podem esperar. O PMA já pediu uma ajuda alimentícia imediata para os famintos, embora, a longo prazo, também tenha pedido às autoridades que iniciem reformas políticas e invistam em agricultura. EFE ms/rb/rr

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