Com 90% de alfabetizados, Sobral vira referência em educação

Em sete anos, a cidade de Sobral no semi-árido nordestino elevou a mais de 90% o índice de alfabetização, zerou a taxa de abandono escolar até a quinta série e se tornou referência em educação no Brasil. A 230 km de Fortaleza, Sobral começou a implementar metas de desempenho e estabelecer rotinas de práticas pedagógicas depois de constatar que, como ainda acontece com 84,5% dos alunos brasileiros, as suas crianças iam à escola, mas não aprendiam.

BBC Brasil |

"Era aquela coisa: 'a gente finge que dá educação, eles (alunos) fingem que recebem e tudo bem'", admite a diretora da Escola Padre Osvaldo, Maria Lucilene de Lima.

Entre 2001 e 2007, o município quase dobrou (49,1% para 93,4%) o índice de alunos da segunda série alfabetizados e se tornou modelo para o Programa de Alfabetização Idade Série, implementado em todo o Estado do Ceará.

"No início foi sofrido porque era uma mudança de concepção, uma nova forma de fazer educação", lembra Lucilene, que na última quarta-feira comemorava o fato de que apenas quatro dos 300 alunos do turno da manhã haviam faltado.

Sobral obteve 4,9 no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2007, contra 4 em 2005. O número ainda está distante da meta de 6 que o Plano de Desenvolvimento da Educação propõe para 2022, mas está acima da média nacional (4,2) e é bem superior à média do Nordeste (3,5).

"O que a gente faz é cumprir o que está na lei (em relação à destinação de recursos, 25% da receita municipal). Pode melhorar ainda mais", afirma a coordenadora do ensino fundamental de Sobral, Iracema Souza.

Analfabetismo escolar
O ponto de virada para o município cearense foi 2000, quando uma avaliação mostrou que metade dos alunos (48%) da antiga segunda série não conseguia ler sequer palavras, muito menos textos.

O resultado desmoralizou os investimentos que vinham sendo feitos na construção de novas escolas e levou o município a questionar o desempenho que esses alunos teriam nos anos seguintes.

"No início de 2001 uma avaliação identificou que 60% das crianças na segunda série não sabiam ler, assim como 40% na terceira e 20% na quarta. Estávamos diante de um fenômeno denominado de analfabetismo escolar", afirma o secretário de Educação de Sobral, Julio Cesar da Costa Alexandre.

As primeiras medidas foram a redução do número de escolas para melhorar o acompanhamento de alunos e professores e a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos, mudança depois adotada em todo o país.

Metas
Na época, Sobral instituiu 10 metas, sendo a primeira alfabetizar 100% das crianças ao final dos sete anos e, a segunda, alfabetizar as crianças que estavam no terceiro e quarto anos que também não estavam alfabetizadas.

Para atingir as metas, foi formulada uma política para fortalecer três eixos: gestão escolar, ação pedagógica e valorização do magistério.

A blindagem da educação contra indicações políticas e um rigoroso processo de seleção para diretores ajudaram a melhorar a gestão. Para fortalecer a ação pedagógica, os professores foram obrigados a voltar à sala de aula para estudar uma vez por mês, num programa de formação continuada em que revêem conteúdos e recebem material didático.

A professora do quarto ano Mariana Olbanha dos Santos, de 38 anos, diz que teve de mudar o seu jeito de dar aula.

"Alguns tabus foram quebrados", diz Mariana, no intervalo de uma formação em Língua Portuguesa. "A gente lecionava como tinha aprendido antigamente, aquela coisa fechada, e isso vem mudando. A gente tem trabalhado de maneira mais dinâmica."
Na estratégia de valorizar o magistério, Sobral paga gratificações para professores com base no desempenho da sua turma. Os que alcançarem a meta de alfabetização para a sua série ganham R$ 100. Os que ficam abaixo, R$ 65 e os que a ultrapassarem, R$ 130. Os salários, como em todo o país, são baixos: de R$ 222,81 a R$ 989,62.

Não faltam avaliações para medir o desempenho dos alunos. Só o município aplica duas por ano, fora as do Estado e a nacional, feitas uma vez por ano.

Rui Aguiar, técnico de projetos do Unicef (Fundo da ONU para a Infância), afirma que é importante fazer a avaliação pelo menos duas vezes por ano para que se possa fazer correções de um semestre para o outro, mas alerta para o excesso de avaliações.

"O ideal é que no futuro esses instrumentos (municipal, estadual e nacional) sejam unificados."

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