Com 160 mortos, tragédia na Guiné ganha firme condenação

Dacar, 29 set (EFE).- Pelo menos 160 pessoas morreram e 1.

EFE |

250 ficaram feridas na Guiné durante a violenta repressão policial a uma manifestação opositora nesta segunda-feira, na capital Conacri, contra a junta militar golpista que governa o país, fatos que hoje desencadearam uma série de condenações da comunidade internacional.

Aos 157 mortos na segunda-feira durante a operação policial, se unem outros três, baleados hoje pelas forças de segurança, segundo informaram emissoras de rádio regionais captadas em Dacar.

Unidades da Polícia e da Guarda Nacional guineanas foram enviadas a bairros populares de Conacri, considerados redutos da oposição à junta militar liderada pelo capitão Moussa Dadis Camara, que governa o país desde o golpe de Estado de 23 de dezembro.

A oposição denuncia, entre outros aspectos, a intenção de Camara de se apresentar como candidato nas eleições presidenciais de janeiro próximo, apesar de anteriormente ter anunciado que não o faria e que devolveria o poder aos civis.

Camara visitou hoje dois hospitais de Conacri para mostrar sua solidariedade às centenas de feridos nos enfrentamentos.

Segundo as diversas emissoras captadas em Dacar, a agenda de Camara inclui uma série de visitas aos principais líderes opositores, em um aparente gesto de boa vontade para restabelecer a calma e a paz no país.

Vários líderes da oposição reivindicaram uma comissão de investigação internacional para identificar os responsáveis pela tragédia.

O também ex-primeiro-ministro guineano François Fall denunciou abusos coletivos a mulheres pelas forças de segurança, o que qualificou de "crime contra a humanidade" e pediu a intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI).

Moukhtar Diallo, líder das Novas Forças Democráticas, pequeno grupo opositor, confirmou a denúncia de abusos a mulheres pelos soldados.

Dos corpos, pelo menos 87 foram recolhidos no estádio e em seus arredores, onde dezenas de milhares de opositores se concentraram até que as forças de segurança começassem a lançar bombas de gás lacrimogêneo e a atirar contra os manifestantes.

As demais vítimas morreram em outras ações da Polícia e da Guarda Nacional nas ruas de Conacri.

Entre os feridos estão dois ex-ministros e líderes da oposição, Cellou Dalein Diallo e Sidya Touré, que ficaram varias horas detidos e tiveram suas casas saqueadas por militares.

Centenas de supostos opositores foram detidos pelas forças de segurança que patrulham as ruas de Conacri, que hoje recuperou uma relativa calma, embora a tensão permaneça em alguns bairros populares, segundo rádios locais.

Touré denunciou hoje a brutalidade da intervenção policial, especialmente da Guarda Nacional, a quem acusou de atuar com "clara vontade de eliminar fisicamente os manifestantes".

Em entrevista à rádio privada senegalesa "RFM" divulgada hoje, o capitão Camara se eximiu de culpa nos incidentes e responsabilizou os opositores pela tragédia.

O chefe militar golpista apontou como responsável o ex-primeiro-ministro Sidya Touré, sobre quem disse ter ignorado a proibição de se manifestar ditada pelo Ministério do Interior.

Segundo o Encontro Africano para a Defesa dos Direitos Humanos (Raddho), com sede em Dacar, a crise política da Guiné se originou pela vontade da junta militar de impor a candidatura de Camara nas eleições de janeiro próximo, com o que descumpriria o acordo de devolver o poder aos civis.

A oposição assegura que não aceitará "de nenhuma maneira" a candidatura de Camara e dúvida da capacidade da junta militar de organizar eleições limpas e transparentes.

A União Africana (UA), que suspendeu a Guiné depois do golpe de estado, condenou o que qualificou de "grave violação dos direitos humanos", e anunciou que considerará a eventual imposição de sanções ao país.

A Comunidade Econômica dos Estados de África Ocidental (Cedeao) condenou hoje a violência policial, exigiu a libertação dos detidos e pediu uma investigação internacional.

O Governo do Senegal condenou o que chamou de "atos odiosos que põem em perigo a paz, a segurança e a transição na Guiné" e pediu "calma" à junta militar.

A França, antiga potência colonial na Guiné, lamentou a repressão "sangrenta e selvagem" e as "violações dos direitos humanos". Paris anunciou também a imediata suspensão da cooperação militar.

A pedido da França, a União Europeia (UE) se reunirá amanhã em Bruxelas para estudar medidas complementares, especialmente individuais, que poderiam ser tomadas de forma rápida.

Na ONU, o secretário-geral Ban Ki-moon se mostrou "comovido" com a perda de vidas humanas e criticou o "excessivo uso da força" contra os manifestantes na Guiné.

O alto representante para a política externa e de segurança comum da UE, Javier Solana, condenou em comunicado o uso da força em Conacri e pediu às autoridades "moderação", em prol de "uma transição pacífica e democrática".

A Comissão Europeia (órgão executivo da UE) pediu "diálogo" na Guiné e apontou que o país só poderá encontrar o caminho para a paz, a democracia e o desenvolvimento com eleições "pactuadas" e sem participação de membros da junta golpista. EFE st/rr

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