Colômbia investiga vice-presidente por suposta reunião com as Farc

Justiça abriu 'investigação preliminar' contra Angelino Garzón por suposta reunião com três chefes das Farc em fevereiro de 2002

iG São Paulo |

EFE
Vice-presidente da Colômbia, Angelino Garzón, participa da Cúpula Iberoamericana (28/10)
A Justiça da Colômbia abriu uma investigação preliminar contra o vice-presidente Angelino Garzón por conta de uma suposta reunião que teria sido realizada há anos com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), informou nesta quinta-feira a procuradora-geral Viviane Morales.

Leia também: Ex-chefe de serviço secreto colombiano é condenado a 25 anos de prisão

Em entrevista à rádio RCN, Viviane explicou que o processo foi aberto por um dos juízes da Corte Suprema de Justiça (CSJ), a partir de um testemunho de um desertor do grupo rebelde.

A suposta reunião ganhou destaque após ser denunciada por Diego Hernández Trejos, ex-guerrilheiro da Frente 30 das Farc, em uma audiência livre aos promotores da União Nacional de Justiça e Paz, jurisdição de transição para atender rebeldes e paramilitares que deixaram os grupos armados.

Parte da versão de Hernández foi revelada pela rádio La FM, de Bogotá. Na entrevista, o desertor garantiu que a reunião ocorreu no dia 19 de fevereiro de 2002 e que contou com comandantes insurgentes conhecidos como 'J', 'Freddy' e 'Richard', que entregaram, segundo a fonte, uma quantia de US$ 84,6 mil.

Viviane afirmou que um dos juízes da CSJ recebeu cópias da versão recolhida pelo instrutor do caso e decidiu abrir uma investigação preliminar. Segundo o desertor, Garzón se encontrou com comandantes das Farc na zona rural de Dagua, região do departamento de Valle del Cauca, onde o vice-presidente foi governador entre 2003 e 2007.

A procuradora-geral observou que, apesar do desertor ter dito que Garzón exercia o cargo de governador nessa época, na realidade, ele era ministro do Trabalho. Ele comandou a pasta no governo do agora ex-presidente conservador Andrés Pastrana (1998 - 2002) e, depois de cumprir seu mandato no governo de Valle del Cauca, foi designado como representante permanente da Colômbia na ONU.

Viviane disse que o agora vice-presidente já respondeu às acusações do ex-rebelde em carta ao procurador-geral Alejandro Ordóñez, com cópia para ela. Na mensagem, "há evidentes circunstâncias que confirmam em princípio certas inconsistências na versão do acusado", acrescentou Viviane, que defende requisitos mais rígidos para esses tipos de investigações, que podem ficar sem comprovação ou se tratar de mentiras.

"Aqui, o normal é iniciar uma investigação preliminar", destacou. Viviane também observou que o caso de Garzón é um dos mais de nove mil que possuem origem em acusações de ex-paramilitares e ex-guerrilheiros.

Conhecido sindicalista e jornalista formado, Garzón fez parte da campanha que levou ao poder o presidente Juan Manuel Santos , no cargo desde agosto de 2010. Até essa sexta-feira, o vice-presidente estará fora do país, pois faz uma visita oficial à Suíça e Noruega.

Dissolução do DAS

Juan Manuel Santos dissolveu na segunda-feira a agência de inteligência DAS , acusada de crimes graves, e restabeleceu o Ministério do Trabalho, distanciando-se ainda mais de seu predecessor, Álvaro Uribe. "O país sabe muito bem as razões pelas quais decidimos tomar essa decisão", disse o presidente Santos na ocasião. "Não é uma transformação, não é uma reforma. No caso do DAS, é uma liquidação. O DAS será suprimido", enfatizou o presidente.

Leia também: Colômbia fecha central de inteligência por espionagem ilegal

O DAS se viu envolvido sob o governo de Uribe (2002-2010) em escândalos pela infiltração das milícias paramilitares. Um de seus ex-diretores, Jorge Noguera, foi condenado por homicídio e cumplicidade com esses grupos de extrema direita, que se desmobilizaram entre 2003 e 2006, e o ex-vice-diretor José Miguel Narváez, também é acusado de homicídio.

Além disso, o ex-secretário da presidência de Uribe, Bernardo Moreno , encontra-se em prisão preventiva e a ex-diretora do DAS María del Pilar Hurtado é processada pela Justiça e está exilada no Panamá, por um escândalo de escutas ilegais contra juízes da CSJ, opositores e jornalistas que investigam ligações de políticos com paramilitares.

A comissão de acusações do Congresso iniciou em outubro de 2010 uma investigação para determinar eventuais responsabilidades na espionagem de Uribe, que nega tê-la ordenado. Devido a este escândalo, o DAS deixou de receber cooperação técnica dos Estados Unidos há um ano.

As práticas criminosas do DAS, fundado na década de 1950, são muito anteriores à gestão de Uribe. Um ex-diretor, o general Miguel Maza Márquez, foi preso pelo assassinato em 1989 do ex-candidato liberal Luiz Carlos Galán, assassinado por pistoleiros do narcotráfico.

"Ao longo de sua história, o DAS foi usado como um aparato da polícia política, mais que um organismo de segurança, e em alguns momentos, como durante o governo do ex-presidente Uribe, inclusive como aparato crimonoso", disse na terça-feira o parlamentar de esquerda Iván Cepeda. "Esse órgão desenvolveu uma perseguição que incluía antentados criminosos, e que compromete o ex-presidente Uribe", afirmou esse congressista.

De acordo com a lei de inteligência que já foi aprovada no Congresso e é avaliada atualmente pela Corte Constitucional, o DAS será substituído por uma nova agência de inteligência, que começará a funcionar em 2012 sob maiores controles e não poderá realizar interceptações sem uma ordem judicial.

Ataques do ex-presidente

Para o cientista político Fernando Giraldo, com a liquidação do DAS, assim como com o restabelecimento de um Ministério do Trabalho, que o presidente encarregou ao presidente do Partido Liberal, Rafael Pardo, Santos marca uma maior distância de Uribe.

"Santos vai se afastando cada vez mais de Uribe, que se saiu muito mal nas eleições regionais", disse Giraldo, ao lembrar que os principais candidatos apoiados pelo ex-presidente perderam.

Uribe atacou o governo Santos e o responsabilizou pelos maus resultados eleitorais do Partido Social de Unidade Nacional, fundado pelo atual presidente para impulsionar a reeleição de seu predecessor, de quem foi ministro da Defesa.

Leia também: Eleição de ex-guerrilheiro a prefeito marca virada da opinião pública

"Há uma preocupação crescente entre os cidadãos com o governo afastado, inativo, com um governo de propaganda, com a desmotivação das Forças Armadas, com uma política de segurança que dá sinais de deterioração. Então, a nós nos resta fazer campanha com um governo que dá sinais de hostilidade", declarou Uribe a uma rádio colombiana, ao explicar seus maus resultados eleitorais.

Giraldo completou que "Santos continua pelo caminho de consolidar e favorecer o Partido Liberal, e nomeia Pardo como ministro", decisão que Uribe também classificou como "hipócrita".

As duas medidas respondem às prioridades do governo de Santos, de buscar transparência e dar maior ênfase nos temas sociais, enquanto "atende requerimentos do governo dos EUA", declarou.

Restabelecer o ministério do Trabalho, eliminado em 2002, no início do governo de Uribe, "faz parte dos compromissos que Santos assumiu com (o presidente Barack) Obama para a ratificação do tratado de livre comércio", lembrou Giraldo. "Acabar com um órgão tão questionado como o DAS, também", afirmou Giraldo, em alusão ao tratado que acaba de ser ratiicado pelo Congresso dos Estados Unidos.

Com AFP e EFE

    Leia tudo sobre: colômbiajuan manuel santosgarzónfarcuribedasbogotá

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG