O governo da Colômbia destituiu 27 militares, nesta quarta-feira, acusados de envolvimento no desaparecimento e assassinato de jovens inocentes para inflar estatísticas de combate à guerrilha. Entre os destituídos estão três generais.

A acusação afirma que há indícios de que jovens civis e pobres das periferias de Bogotá foram seqüestrados e mortos para depois serem apresentados como membros de grupos armados, que teriam morrido em combate.

Eles seriam levados para o norte do país e depois executados, com o objetivo de mostrar que o combate à guerrilha estava dando certo.

O escândalo começou a ser investigado depois que foi descoberta uma vala comum com o corpo de 19 jovens que haviam desaparecido. Segundo familiares, os jovens foram atraídos para as regiões de conflito por ofertas de emprego atraentes e nunca mais voltaram.

O Ministério Público colombiano considera que o assassinato de jovens para criação de estatísticas artificiais na luta contra as guerrilhas pode ser uma prática generalizada no Exército.

Nos últimos 18 meses houve um incremento de casos de execuções extrajudiciais, com um registro de 535 assassinatos, de acordo com um relatório divulgado nesta quarta-feira pela organização de direitos humanos Coordenação Colômbia-Europa-Estados Unidos.

Segundo a organização não-governamental, o aumento no número de casos ocorre em consequência da política de segurança adotada pelo governo de Alvaro Uribe no combate às guerrilhas. "(Há) uma pressão muito forte por resultados sobre as tropas, que muitas vezes têm que mostrar um certo controle das zonas, a qualquer preço", afirmou Alberto Yepes, um dos diretores da ONG.

Sem precedentes
O governo afirmou que repudia a possível prática das execuções. "Não podemos permitir que se confunda a eficácia na luta contra os delinqüentes com a covardia para enfrentá-los, a distorção da eficácia assassinando vítimas inocentes", afirmou Uribe, ao anunciar a destituição dos militares.

A medida se soma à demissão de outros três coronéis, destituídos na semana passada, que pertenciam à 15ª Brigada Móvel, que opera na província Norte de Santander, próximo à fronteira da Venezuela.

"Essas descobertas mostram que em algumas instâncias do Exército houve negligência, falta de cuidados com os procedimentos que têm que ser observados e isso permitiu que algumas pessoas pudessem envolver-se em crimes, crimes (que são) resultado da confabulação entre delinqüentes e integrantes do Exército", acrescentou Uribe.

O escândalo não tem precedentes no país e o governo vem sendo duramente criticado por organizações de direitos humanos.

Na terça-feira a organização Anistia Internacional divulgou um informe no qual solicitou a interrupção da ajuda militar ao governo colombiano, para com isso, diminuir a violação aos direitos humanos. A oposição pediu a renúncia do Ministro de Defesa, Juan Manuel Santos.

"O ministro não pode lavar as mãos, ele tem que assumir a responsabilidade política", afirmou o senador Juan Fernando Cristo a uma rádio local.

Nas duas últimas décadas, pelo menos 70 mil pessoas foram mortas em conseqüência do conflito armado na Colômbia. A maioria dos mortos foi de civis.

Além dos 27 militares destituídos, que serão julgados pela Justiça, o Ministério Público investiga a 2,3 mil servidores públicos por suposto envolvimento nas execuções extrajudiciais.

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