Uma nova estimativa coloca em dúvida o número real de pessoas deslocadas na Colômbia em conseqüência do conflito político no país e opõe governo, organizações não-governamentais (ONGs) e agências humanitárias. Segundo a ONG Conselho Consultivo para os Direitos Humanos e Deslocamentos Forçados (Codhes), 270 mil colombianos foram deslocados no primeiro semestre deste ano, o que significou um aumento de 41% comparado ao mesmo período de 2007.

Mas um porta-voz da agência presidencial Ação Social, encarregada de prestar atendimento a pessoas deslocadas, disse à BBC não confiar nesses números.

O consultor da Ação Social Armando Escobar disse que já foram identificados casos de "pessoas inescrupulosas" que se registram como deslocadas sem sê-lo, e de famílias que se registraram duas vezes.

Enquanto o Codhes estima que há cerca de 4 milhões de pessoas deslocadas na Colômbia, a Ação Social afirma que tem registradas 2,6 milhões de pessoas.

Por sua parte, Gustavo Valdivieso, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), pediu que "não se politize" a polêmica em torno das estimativas e sublinhou que o problema central é o atendimento aos deslocados.

Recrutamentos forçados
Ao apresentar um relatório sobre o fenômeno, o diretor da Codhes, Jorge Rojas, disse que no primeiro semestre de 2008 houve 66 deslocamentos em massa, afetando 33.251 pessoas.

Segundo o especialista do Codhes, a atividade da guerrilha e de grupos paramilitares - muitas vezes ligada à produção e tráfico de drogas -, e práticas como o recrutamento forçado, têm levado a uma onda maciça de deslocamentos forçados.

"O êxodo maciço indica que há uma violenta pressão contra a população civil em várias regiões do país e que continua sendo crucial a questão da fumigação de culturas ilegais (para produção de droga)", disse Rojas.

O porta-voz da Acnur concorda. Segundo ele, "são cada vez mais freqüentes as histórias de pessoas que se mudaram para impedir os seus filhos ou filhas de ser recrutados".

"É incontestável que há um aumento dos deslocados", disse Valdivieso. Mas ele explicou que a situação não é a mesma em todas as regiões da Colômbia.

Segundo o porta-voz, o movimento caiu em algumas e subiu em outras. Um dos novos fatores a influenciar esta dinâmica é a existência de minas antipessoal espalhadas pelo país.

Governo
Já Armando Escobar, da agência governamental, nega que tenha havido um aumento dos recrutamentos forçados ou dos deslocamentos.

"Grande parte do aumento no deslocamento em 2007 e 2008 refere-se a processos de reacomodação das famílias. Isto quer dizer que muitas famílias que já estavam registradas como deslocadas se dividiram e voltaram a se inscrever com outros membros", ele argumenta.

Segundo o consultor do governo, dos últimos 500 mil registros de deslocados, 160 mil são pessoas que já tinham registrado anteriormente.

Além disso, ele afirma, "este ano, começamos a perceber um aumento importante nas fraudes de registros. Há muita gente que consegue se registrar sem ser deslocada".

Segundo ele, muitos pobres "vêem que ser deslocado implica vantagens em saúde, educação e moradia".

A Ação Social afirma que cerca de um milhão de pessoas deslocadas (280 mil famílias) estão ligadas ao Programa Presidencial Famílias em Ação, que oferece subsídios alimentares e educação para crianças com menos de 18 anos.

O Codhes diz que a situação socioeconômica dos deslocados é "crítica" e alerta para o fato de que mais de 80% deles vivem em condições miseráveis.

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