Coisas das segundas-feiras

Começo de semana. Segunda.

BBC Brasil |

Gente reclamando. Tal e qual sucedeu na canção popular, só que roqueira: o grande, aliás o único, sucesso da banda Boomtown Rats, aquela do Bob Geldorf, antes do boneco emplacar um disco de ouro por salvar o mundo. I Don't like Mondays. Comentário de uma assassina pô-louca americana, Brenda Spencer, que serviu de inspiração para o ora "sir" anglo-irlandês.

Quase todos botam defeito na segunda-feira. Eu acho uma graça. A tchiurma indo trabalhar direitinho, os assassinos em casa curtindo uma ressaca, falando sozinhos e armando revólver, rifle ou arcabuz. A Humanidade é melhor de reclamação do que louvação.

Estão aí pesquisas rigorosamente científicas que não me deixam mentir. Está aí também o filósofo Jullian Baggini, que dedicou um livro inteiro à universal mania de reclamar. O título da obra é Queixa: das lamentações menores a protestos baseados em princípios. Muito longo. Vou logo me queixando e protestando.

São os britânicos o povo que mais reclama do mundo. Segundo eles, os britânicos. Queixo-me de novo discordando. Todo mundo se queixa, reclama, protesta. Faz parte da condição humana. De segunda a domingo.

Nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis, parcialmente já vencida (pelo menos até o dia em que o Sr. e a Sra. Obama tomarem posse, tornando assim realidade o sonho do reverendo Martin Luther King Jr), começou com uma queixa.

Todos conhecem a história. Rosa Parks. No dia 1 de dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, estado do Alabama, recusou-se a se levantar do lugar onde estava sentada para cedê-lo a um branco. Foi dada assim a partida para a renhida peleja brancos versus negros. Rosa Parks é, hoje, ícone, estátua e inspiração.

Ninguém se lembra do nome do motorista do ônibus, o que deu ensejo ao sacudido movimento. Era James Blake, diligente funcionário da companhia de ônibus para a qual trabalhou a vida inteira até sua morte, no ano de 2002. Não ganhou sequer uma placa. Tem gente que reclama do fato.

A reclamação me leva de volta ao tópico em questão. A queixa. Segundo o filósofo Baggini, que, na verdade, tem nome de centro-avante do Milan e da seleção italiana ("...bola com Baggini que mata no peito e olha para as pontas esperando alguém para poder passar... ninguém... Baggini com as duas mãos na cintura reclama aos palavrões ..."), até que bate uma bola filosófica legal.

Diz ele que "queixar-se, de uma maneira geral, é uma forma de assegurar nossos valores". Também pode ser uma forma de se comunicar, nem que seja para discutir o danado do tempo, coisa mole aqui nas ilhas.

O importante da comunicação é não ficar em casa feito a mocinha americana que não ia lá com as segundas-feiras e saiu "pela aí" mandando bala. Tivesse ela pegado um ônibus e se dirigido com sua birra para o desconhecido sentado ao seu lado, talvez estivesse vivo quem ela fez subir. Queixar-se é uma forma de mostrarmos nossas paixões.

Ninguém se queixa, ou perde tempo, falando das coisas que lhe são indiferentes. Toda queixa, e só queixa, constrói. Toda queixa é política. Como uma imprensada no vereador ou deputado que não cumpriu as promessas feitas durante a campanha eleitoral.

Aqui no Reino Unido
Os cidadãos britânicos são, em essência, pessimistas. O que os aproxima de uma realidade plausível. Viver, aqui, ali ou acolá, é uma chatice infernal. Vital é afirmar isso em voz alta. Mesmo para os desconhecidos. O risco de prisão e internação em hospício constituem, em si, motivo de mais queixas. O mundo é redondo e circular. Não há como dele escapar. E, sim, isto é uma queixa.

Uma pesquisa foi feita no Reino Unido. Mais uma tediosa e tola pesquisa. (A queixa, a lamúria e a lamentação, feito a liberdade, exigem eterna vigilância) Chegou-se, dest'arte a uma lista, vulgar e sem graça como todas as listas. Além do mais, arredondando o número de chatices para dez, o que não pode ser mais brega.

A lista
Em primeiro lugar, queixar-se do azar, ou, seu equivalente, o destino. Seguido de problemas de saúde, um assunto predileto, mas isso para quem não sofre, como eu, de arritmia, fibrilação auricular e enfisema, coisas que só mau-olhado, despacho ou artes do Demo explicam.

Em terceiro lugar, eles acham que tudo na vida piorou e que era muito melhor antes, um antes sempre vago, sempre indefinido. Quanta tolice. Seguem-se: queixas dos cônjuges, amigos ou parceiros e parceiras. Tem uma certa razão aí, os britânicos. Essa gentinha toda não vale nada.

Só em quinto lugar é que surge reclamação do tempo, essa que virou piada universal. Os britânicos, apesar de terem o tempo todo muita e variada meteorologia, se aborrecem com ela porque não sabem o que é um sol no lombo e na cabeça o ano inteiro. Pobres coitados.

Em sexto lugar, vêm os líderes religiosos. Quase que concordo, mas, quando me lembro de nossos pretos véios, pombagiras, despachos e toda nossa macumba, dou meia-volta volver.

Enfileirando as quatro catimbas que mais aporrinham os locais: o preço das coisas, o transporte público e o trânsito, a corrupção dos políticos e a televisão.

Aí, nestes pontos finais, sou obrigado a mais ou menos concordar. Mas quicando e argumentando que a turma não sabe de nada. Nunca abandonarei o sagrado direito de me queixar. Dessem uma chegadinha a nossos tão divulgados cartões-postais, que de cima e longe é bonito, e aí então veriam o que é bom.

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