Manuel Fuentes. Santiago do Chile, 20 dez (EFE).- A vitória da direita oposicionista nas eleições municipais do Chile realizadas em outubro último representou a primeira derrota da coalizão Concertação Democrática em seus 18 anos de Governo central e suscitou disputas internas na legenda para as eleições presidenciais do próximo ano.

Embora a Concertação tenha vencido com quase dez pontos percentuais de diferença a votação para vereador, a Aliança pelo Chile - coalizão formada pelos partidos direitistas Renovação Nacional (RN) e União Democrata Independente (UDI) - obteve sua primeira vitória desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-90).

A direita se manteve nas Prefeituras de Santiago e de Viña del Mar, e arrebatou da coalizão governamental cidades emblemáticas como Temuco e Valparaíso.

O pleito municipal deste ano foi o primeiro a contar com a Concertação dividida em duas listas de candidatos a vereador: uma reunia o Partido pela Democracia (social-democrata) e o Partido Radical, e a outra, o Partido Socialista e a Democracia Cristã.

Os resultados das eleições municipais foram especialmente adversos para esta última legenda, a mais importante do Chile e que registrou queda de 25% em sua popularidade.

Isso levou à renúncia de sua presidente, a senadora Soledad Alvear, que até então pretendia ser a candidata presidencial da Concertação em 2009.

Entre os filiados ao partido, os resultados foram interpretados como uma severa advertência por parte da população.

A presidente chilena, Michelle Bachelet, reconheceu que foi um aviso aos partidos e dirigentes da Concertação, aos quais pediu de forma insistente "mais unidade, mais unidade e mais unidade".

No entanto, o empresário Sebastián Piñera, candidato presidencial pelo RN derrotado por Bachelet em 2006 e que pretende novamente aspirar à Presidência pelo bloco direitista - assegurou que os chilenos "estão pedindo uma mudança".

Embora as pesquisas lhe dêem liderança nas intenções de voto, Piñera ainda não foi escolhido para ser o candidato da Aliança pelo Chile, já que seu parceiro de coalizão, a UDI, tem seus próprios aspirantes.

Na Concertação, a disputa interna tem como protagonistas dois ex-presidentes - o democrata-cristão Eduardo Frei (1994-2000) e o socialista Ricardo Lagos (2000-2004) - e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza.

Ao longo de 2008, o Chile foi palco de protestos sociais e sindicais de cunho econômico que agitaram o país e tiveram impacto nos principais setores industriais e de serviços.

Com o cobre, principal produto do país, alcançando cotações recordes, milhares de trabalhadores de empresas terceirizadas pela companhia estatal Corporação Nacional do Cobre (Codelco) promoveram em abril uma greve em três minas, que provocaram prejuízos de até US$ 200 milhões.

Cerca de 90 mil professores protagonizaram também inúmeras paralisações, entre maio e julho, contra o projeto da Lei Geral de Educação, que, apesar de ter sido aprovado pela Câmara dos Deputados (Baixa), ainda segue em trâmite no Senado.

No final de novembro, 400 mil funcionários públicos - incluindo juízes e médicos - promoveram uma queda-de-braço com o Governo para conseguir um reajuste salarial acima da inflação.

A exigência finalmente acabou atendida quando o Parlamento aprovou um aumento de 10% para todos os funcionários.

Analistas e organismos internacionais como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) coincidem em afirmar que o Chile contou com um manejo econômico nos últimos anos que permitirá ao país enfrentar a crise financeira internacional em melhores condições que outros países.

O superávit na conta corrente, a disciplina fiscal, US$ 22 bilhões em reservas internacionais, um fundo especial adicional de US$ 30 bilhões economizados durante a alta do cobre, a regulação do sistema financeiro e a estabilidade macroeconômica são suas principais ferramentas para enfrentar o incerto panorama econômico mundial.

No âmbito diplomático, Michelle Bachelet, presidente rotativa da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), conseguiu entrar para a história devido ao sucesso de uma cúpula que organizou em 15 de setembro em Santiago.

Na ocasião, os chefes de Estado e de Governo dos 12 Estados que compõem o órgão demonstraram capacidade para resolver conflitos na região, ao frearem a grave crise política boliviana. EFE mf/fr

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