Clima de tensão marca greve contra governo de Morales

A greve geral realizada por cinco dos nove departamentos (Estados) da Bolívia nesta terça-feira foi marcada por um clima tenso e alguns episódios de violência.

BBC Brasil |

Em Santa Cruz de la Sierra, capital do departamento de Santa Cruz, o mais rico do país, três policiais foram agredidos por opositores do presidente Evo Morales quando tentavam abastecer o carro num posto de gasolina.


Greve na Bolívia foi convocada pela oposição / AP

Em meio a socos e pontapés, os policiais deixaram o local feridos e correndo, de acordo com a agência de notícias boliviana Red Erbol.

Na madrugada desta terça-feira, segundo a Agência Boliviana de Informação (ABI, que é oficial), opositores do presidente teriam agredido simpatizantes do governo no bairro "Plano 3000", o maior de Santa Cruz de la Sierra, reduto de eleitores de Morales. Não foram divulgados números de vítimas.

Pela manhã, manifestantes bloquevam parcialmente estradas que ligam o departamento de Beni ao território brasileiro e também de Tarija para o território paraguaio, segundo as rádios bolivianas.

Os motoristas que tentaram furar os bloqueios tiveram vidros quebrados e pneus furados.

O governo reforçou o policiamento em prédios públicos. De acordo com a ABI, manifestantes ocuparam na segunda-feira o prédio da alfândega em Tarija.

"Parcial"

A greve é realizada nos departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca e foi convocada para protestar contra o corte determinado pelo governo central no repasse de verbas do setor petroleiro para os caixas regionais.

Juntos, esses departamentos representam mais de 50% do PIB do país.

De acordo com os primeiros dados da polícia, a paralisação é "parcial" nestas cinco regiões.

Em vários pontos, lojas e escolas foram fechadas e o transporte público suspenso, em muitos casos por temor de violência.

O aeroporto de Beni suspendeu suas atividades e o mesmo foi feito, parcialmente, em Santa Cruz.

Referendo

Os protestos ocorrem nove dias depois do referendo revogatório que ratificou tanto Morales quanto a oposição no poder.

O presidente boliviano recebeu, segundo dados oficiais, cerca de 10 pontos percentuais a mais (67%) do que quando foi eleito, em dezembro de 2005.

No fim de semana, mais de 20 pessoas ficaram feridas em enfrentamentos em Santa Cruz.

Na ocasião, deficientes protestaram por uma bonificação anual de 3 mil bolivianos (em torno de US$ 420).

Nesta terça-feira, o Congresso Nacional, a pedido do governo, deverá debater o projeto sobre esta bonificação.

"Uma situação insólita. Deficientes com cadeiras de rodas e muletas brigando nas ruas. Único setor social a apoiar os opositores de Morales", disse a comunicadora Amalia Pando, da Red Erbol, em seu editorial desta terça-feira.

Imposto

O protesto desta terça-feira é pela devolução do chamado IDH (Imposto Direto aos Hidrocarbonetos) e representa mais um capítulo na disputa entre oposição e governo.

O estatuto de autonomia de Santa Cruz, região rica em petróleo e soja, prevê a administração direta dos recursos gerados por estes setores - sem o aval do governo central.

O ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, disse estar "preocupado" que os protestos sejam realizados na data do golpe militar de 1971.

"Devo manifestar nossa profunda preocupação por esta estranha coincidência de que decretem uma paralisação cívica na mesma data em que Bolívia viveu, há 37 anos, o início do violento golpe militar", disse.

O presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Branco Marinkovic, reagiu: "Nós não somos violentos. O governo, sim".

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